Nada revela mais a fragilidade da fé e a fraqueza racional de alguns cristãos do que o profundo medo de uma simples
alternativa explicativa mais lúcida e mais provável sobre o personagem de Cristo.
Se um dia um colega confiável lhe chega todo entusiasmado dizendo que viu um magnífico carro importado dirigido por uma
belíssima mulher, normalmente você não tem bons motivos para duvidar que ele esteja falando a verdade, por mais que
esteja a exagerar. Mas se ele chega e diz que viu um disco voador voando no céu pilotado por um dragão, aí você, normalmente,
tende a ser mais desconfiado.
Da mesma forma, poucas pessoas duvidam que um homem possa sofrer um tiro e sobreviver, mas é difícil acreditar que
alguém sofreu 10 tiros em partes vitais do corpo, morreu, foi enterrado e depois ressuscitou 3 dias depois.
Curiosamente, essa simples e clara dicotomia entre o fantástico improvável e o modesto provável foi invertida pela história
da religião cristã. Por quase dois milênios uma civilização foi duramente martelada com a idéia de um homem que fazia
milagres e que havia ressuscitado. A insistência e a pressão psicológica dessa doutrinação foram tão fortes, que se hoje
em dia alguém oferece uma alternativa muito mais plausível e realista, é um escândalo!
Acaba de estrear nos cinemas um filme baseado no livro
O Código da Vinci
de Dan Brown. O filme e o livro podem ter muitos méritos, mas com certeza não a originalidade da idéia central. A tese de que
Jesus Cristo foi um homem normal que se casou e teve filhos é tão velha quanto a tese de que foi o Filho de Deus encarnado.
Bem como a idéia de que Maria Madalena foi muito mais que uma simples prostituta arrependida, mas sim uma brilhante
sacerdotisa e esposa de Jesus, com a qual teria até mesmo tido filhos.
Tais idéias sempre estiveram rondando por aí, mas foi preciso um best seller e agora um blockbuster para
chamar a atenção das massas e despertar a ira dos conservadores.
Não é a primeira vez que isso acontece,
A Última Tentação de Cristo,
Je vous Salut Marie,
O Corpo,
Stigmata e
Dogma
são alguns exemplos de filmes que das mais diversas formas desafiaram a milenar visão tradicional.
A reação dos conservadores é, como sempre, patética. Chega às raias do ridículo e em geral é contraproducente, pois a
polêmica só faz aumentar a bilheteria do filme, e uma coisa fica ainda mais clara: Na maioria das vezes, esses vorazes
críticos nem sequer viram o filme!
Isso ficou claro, por exemplo, na dobradinha
Stigmata
e
Dogma
onde as baterias da intolerância religiosa se voltaram contra o último. Porém, quem viu Dogma
sabe que além de ser uma comédia das bem bobas e bem ridículas, em momento algum nega a divindade de cristo e
nem mesmo da Igreja. Pelo contrário! Fica claro que a Igreja é vista como uma instituição divinamente legítima, com poder
sobrenatural real! Já em Stigmata
a mensagem é muito clara. A Igreja é um erro desastroso, jamais deveria ter existido!
Mas a tosquidão mental dos conservadores fez com que Dogma
tivesse suas exibições reduzidas, aqui em Brasília foi exibida em apenas um minúsculo cinema, ao passo que
Stigmata passou incólume sendo exibido numas 10 salas espalhadas por todo o DF.
Novamente os intolerantes estão dando um tiro pela culatra, e mostrando que não conhecem e não leram o livro.
É estranhíssima essa reação da Opus Dei, pois no livro a instituição não é a vilã, mas sim um personagem
misterioso chamado "O Mestre" que manipula dois membros da Opus Dei, um deles claramente louco. A instituição
não é diretamente acusada dos crimes. O que ocorre apenas é que o livro comenta sobre alguns hábitos pouco populares
que ocorrem na instituição que nem mesmo eles têm corragem de negar.
E curiosamente, apesar do que afirmei acima, o livro, e o filme, não chegam nem sequer a contestar a divindade ou os
milagres de Cristo, mas sim, tão somente, o colocam numa dimensão mais humana, afirmando que ele tinha uma esposa,
como todo e qualquer bom judeu, e que esta tinha papel de destaque nos primórdios do cristianismo.
Mas certos cristãos não podem tolerar isso, qualquer vaga insinuação de que seu personagem mitológico seja uma vírgula
diferente daquilo em que acreditam não pode ser perdoada, e mobilizam-se contra uma das maiores conquistas da civilização
ocidental contemporânea: A liberdade de crença, idéias e expressão.
Mas o que mais me impressiona são os adjetivos que o livro de Brown tem recebido, de "absurdo" a "historicamente errado".
Curioso que tais cristãos parecem se esquecer que NÃO HÁ NEM UMA ÚNICA evidenciazinha mínima de que cristo tenha sequer
existido, a não ser o próprio evangelho e comentários deste. Nenhum suporte arqueológico, histórico ou mesmo lógico
disponível. É totalmente baseado na fé.
Mas quando alguém lança uma interpretação mais plausível, que pelo menos não nos exija acreditar em milagres e eventos
sobrenaturais, eis que lançam-se os defensores do dogmatismo acusando a idéia de absurda, e não raro adicionando
"do ponto de vista histórico".
O problema é que a idéia na qual Dan Brown se baseou não é nem um pouco absurda, mas sim muito mais provável que a suposta
verdade que bilhões de pessoas afirmam acreditar. E essas pessoas jamais acreditaram por uma questão de coerência histórica
e lógica, mas simplesmente porque foram obrigadas a acreditar, tendo sido doutrinadas desde crianças das mais diversas
formas possíveis, inclusive ameaças às vezes sutis, às vezes não. No passado, até mesmo mediante tortura.
Não que os elementos em que se baseiam a fé cristã sejam falsos, eu não estou afirmando isso e nem me comprometo com
nenhum ponto de vista específico. Mas o motivo pelo qual Dois Bilhões de seres humanos na Terra se dizem cristãos nada
tem a ver com exame histórico ou raciocínio criterioso, e sim pura e simplesmente por inércia sócio-cultural.
São cristãos porque seus pais o foram, e seus avós e bisavós. São por pura tradição e densidade cultural de um sistema de
idéias que ajudou a construir nossa civilização, e que tem a curiosa propriedade de ser nada aberto a questionamento.
No mínimo 99,9999% dos cristãos jamais examinou sua crença criticamente. Jamais se preocupou em verificar se possui
coerência histórica, embasamento científico ou simplesmente sustentabilidade lógica. Não se preocupam com isso e nem
sequer deveriam. Religião é subjetiva, não se baseia em razão mas sim na necessidade humana. E enquanto for assim, tudo
bem. Mas eis que de repente, essas mesmas pessoas reagem ferozmente quando alguém ousa lançar essa reflexão sobre o
cristianismo, e começa a pensá-lo e questioná-lo.
O problema não é você não fazer, mas sim não querer que os outros façam! E o pior, não querer sequer que outras pessoas
tomem contato com essas idéias não ortodoxas! Afinal de contas mas que diabo de fraqueza moral é essa?! Não têm confiança
suficiente na própria fé?! Acham que ela é tão frágil que vai desmoronar na primeira reflexão crítica?!
Mas eis que a Igreja Católica está bem mais esperta atualmente. Decidiu não fazer campanha contra o filme, pois sabe
que isso só iria aumentar sua audiência. Mas seria querer demais que fizessem nada além de contra indicar o filme para seus
próprios fiéis. É por isso que tenho sérios motivos para desconfiar de eventos como o que ocorreu em Cannes, onde o filme
foi vaiado e criticado, pela "Crítica Especializada", de forma negativa.
Ora, seria bem mais inteligente, ao invés de fazer piquetes tentando impedir que outras pessoas vejam o filme, simplesmente
pagar alguns críticos para malharem o filme "cinematograficamente", dando a impressão de ser uma crítica desprovida de
paixões religiosas, mas sim, puramente "técnica" e profissional. Como se isso fosse possível. Além do que alguns críticos
religiosos farão isso espontaneamente.
Tão incrível quanto o fato de tantas pessoas acreditarem em coisas fantásticas por pura e simples doutrinação, é o fato de
que algumas pessoas realmente deixam de ver filmes baseadas em críticas! Não sei o que mais me assombra! Nunca admiti que
algúem, quem quer que fosse, tivesse autoridade para me dizer o que eu devo ou não ver! Ignoro completamente as críticas
e numa outra ocasião direi tudo o que penso dos críticos de arte, em especial cinema. (A Situação Crítica da CRÍTICA)
Minha desconfiança conspiratória sobre isso se deu devido a um dos poucos comentários parcialmente objetivos que um crítico
pôde fazer, ao afirmar que seria impossível fazer um bom filme porque o livro é impraticável de filmar!
Céus! Qualquer um que entenda alguma coisa sobre livros e cinema percebe que a narrativa de Brown é nada mais nada menos
que cinematográfica! Não só no
O Código da Vinci
mas também em
Anjos e Demônios
e
Fortaleza Digital!
Dan Brown consegue ser mais cinematográfico do que Philip K. Dick ou Michael Crichton! Uma crítica dessas, supostamente na
boca de um crítico de cinema em Cannes, não pode ser séria!
No que se refere ao filme, bem, considerei-o muito bom, não podendo de modo algum concordar com críticas negativas. Há algumas falhas, como inventar uma claustrofobia ausente no livro para o personagem principal, e que não teve função alguma no roteiro *, ou omitir uma das passagens mais belas do livro, quando, ao final, uma sacerdotisa fala do "retorno cultural" do sagrado feminino. *(Me enganei, a tal claustrofobia existe sim, só não tem a relevância que o filme tentou dar, não tendo de fato função alguma no roteiro. - 20/05/10)
Mas no geral o filme ficou excelente. Falhinha aqui, falhinha ali, como também no livro, o certo é que o filme é 10!
E o livro também é 10!
O Código da Vinci
merece nota 20!
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