|
O sol se põe na estrada mas não diminui o azul cinzento que impera no céu e na paisagem arenosa.
O estreito asfalto, na verdade um outro tipo de piso sintético muito mais resistente, serve de
guia a um bando de amazonas em motos flutuantes ultra sofisticadas. Todas lindas, as mulheres e
as motos, grandes e corajosas, nenhuma usa capacete mas algumas usam óculos de proteção. Mais
por estilo pois seus rostos são protegidos pelos escudos de energia frontais das motos. À frente
do grupo 3 delas se destacam, a do meio um pouco recuada das outras, prepara seu gravador de
ondas cerebrais, que converte pensamentos fortes em sinas sonoros. E assim, com a tiara
receptora na cabeça, se concentra para produzir mais um capítulo de seu diário.
Deserto de KOLNEIA, dia 164 do ano 687 da idade pós dourada, ou ano 3947 pelo sistema antigo. Septuagésimo oitavo registro da minha fase nômade.
Meu nome é Alice Bahaba, e se você que está ouvindo esse meu diário esporádico não me conhece, melhor
ainda. Detesto quando minha má fama me precede.
Primeiro deixe-me esclarecer uma coisa, este é o primeiro diário deste mês e como sempre nessa
ocasião eu faço uma breve apresentação de mim mesma e minhas pupilas, para o caso de você estar tomando contato com minhas memórias pela primeira vez.
Eu tenho 48 anos, mas meu metabolismo é supra homo sapiens, não sei se chego a ser
homo superior pois sou DARIANA, como explicarei mais a frente para o caso destes
registros serem pesquisados por alguém de uma cultura menos contemporânea. Tenho 1,87m de altura,
peso 85 kgs, meus olhos e cabelos são castanhos ligeiramente avermelhados e eu sempre os mantenho
ao natural ao contrário de algumas de minhas meninas que mudam cor de olhos, cabelos e pele em
toda oportunidade que encontram como se fossem criaturas miméticas.
Minha mãe era cientista numa cidade utópica, BEL-LAR para ser mais exata, meu pai era
administrador numa das cidades médias que eu não me lembro o nome e nem me interessa. Graças e
eles terem assumido minha criação, tive a oportunidade de conhecer não só as cidades utópicas
como as terras médias e as terras livres, onde preferi viver.
Nenhuma de nós após uma vida tão desregrada, poderia entrar numa Cidade Utópica, e as cidades
médias são confusas, chatas ou caóticas demais. Por isso vivemos aqui, nesses territórios sem
lei, onde cada povoado tem suas próprias regras e onde nós podemos ser o que nos queremos ser, e
não apenas o que a sociedade quer que sejamos.
Fui rebelde por natureza, indomável, chego a ter pena da minha mãe, e embora lamente ter feito
muitas besteiras na vida, hoje tenho orgulho do que sou.
Me vejo no retrovisor, estou com minha viseira de cristal metálico, presente de um incauto
apaixonado que me cortejou há alguns meses atrás e que na primeira investida ficou com alguns
dentes e neurônios a menos devido a sua indiscrição. Mas acabei dando o braço a torcer e quase
lhe pedi desculpas, era um bom homem, mas nem chegou perto de sequer ameaçar me domar.
Acho que a cicatriz que agora já sumiu do meu rosto, que havia ganhado alguns dias depois foi castigo do Universo por ter sido injusta com ele, é a única explicação. Eu tinha desligado o escudo de energia como sempre faço quando quero sentir o vento em meu rosto e cabelos, e quando ajustava os escudos e sensores laterais, o que causa uma breve queda no sensor de aproximação frontal, um maldito besouro se chocou no lado esquerdo bem em cima de minha bochecha. Arrancou uma tira de sangue e doeu um bocado, passei o dia inteiro mal humorada. E se tivesse sido no olho? Demoraria um mês para me curar totalmente.
Portanto passei a tomar mais cuidado com o escudo, nunca alterar os sensores com ele desligado. Fiz isso de regra para todas as meninas.
Nesse momento estou sobre minha moto voando a 29 m/s a frente de minha gangue. Estamos devagar, uma de nossas motos está com o disco antigravitacional dianteiro destruído e tem que se mover sobre rodas até encontrarmos peças de reposição em algum lugar nesses vastos e desolados desertos, o que não será nada fácil. Se eu deixasse, não duvido nada que as malucas donas da moto, estivessem correndo sobre rodas a uns 100 m/s, o que é um suicídio.
Sou uma líder experiente e bastante respeitada, mesmo assim não é fácil manter essas meninas na linha. Tenho que saber precisamente quando ser carinhosa e quando devo acertar o nariz de uma delas para por um mínimo de juízo naquelas cabecinhas inconsequentes. Com algumas exceções é claro. Assim elas me respeitam não só como uma chefe, mas como uma mãe.
Das 40 moças que me acompanham só confio mesmo em duas para qualquer responsabilidade maior,
Djane Mei e Velita Karmeni. Não fosse por elas eu já teria perdido a paciência.
Há também a Xivia Pesel, nossa campeã, que devido a extraordinária capacidade de combate conquistou o respeito das outras e acabou por se esforçar em se adaptar à imagem que fizeram dela.
Na verdade posso contar nos dedos as pessoas desse mundo capazes de derrotá-la numa luta franca, nem eu mesma consigo, mas no fundo em seus meros 24 anos ela ainda não passa de uma criança como as outras.
Com a exceção de 16 garotas, todas as outras inclusive eu somos DARIANAS, prováveis descendentes
de uma hipotética humanidade matriarcal de dois certos planetas chamados SAMTARA e SEILA, cujo
primeiro dizem existir do outro lado da galáxia. Pessoalmente não acredito nesses mitos antigos
mas eles são ótimos para o ego das meninas. Acreditar que em algum ponto da Via-Láctea um
império de mulheres como nós está devorando civilizações inteiras da mesma forma que nós
devoramos "gatinhos" e IONES é no mínimo super excitante.
Por falar nisso acabamos de deixar para trás uma pequena cidade chamada Nova Kalma, aliás todas as cidades que encontramos nos últimos meses se chamavam "nova alguma coisa". Como sempre eu preferia uma estadia mais discreta mas os imbecis dirigentes da cidade tiveram a infeliz idéia de nos hostilizar e aí não deu pra segurar as meninas, elas arrasaram a cidade, pegaram todos os rapazes IONES jovens e fizeram uma orgia que eu juro que nunca ter visto nesses meus 15 anos de estrada e aventuras.
Depois eles contrataram um bando de justiceiros ou protetores locais que juntos com o que restou da polícia dessa região, nos seguiram dezenas de kms e num momento meu de descuido e imprudência de algumas das meninas, acabaram por capturar duas delas.
Jamais deixo sequer uma de minhas garotas para trás, nos reorganizamos, revidamos e demos a aquele bando de machistas babacas uma lição que poderia muito bem faze-los desistir de serem homens. Mas depois eles ainda deram um jeito de juntar mais reforços e se eu não me engano até uns metanaturais locais. Nos seguiram mais um bom bocado mas ao que parece, desistiram há dois dias atrás. Acredito que isso se deve ao fato de eu ter obrigado algumas de minhas pupilas a deixarem para trás os 4 Iones que elas insistiam em trazer.
Resultado, isso nos custou uma moto, que foi totalmente destruída, a outra que não pode mais flutuar e muita munição. Além de algumas delas terem se machucado, nada grave mas há quem vai ficar um tempo com uma cicatriz no braço esquerdo.
Uma vez prometi a elas que em breve todas teriam sua própria e exclusiva moto, no momento só temos 30 contando a avariada, isso obriga algumas a andarem em dupla. Estou demorando a cumprir essa promessa apesar de estarmos progredindo, na ocasião em que prometi éramos 28 moças e 15 motos.
Mas agora o que me preocupa é que com o estardalhaço que fizemos todas as patrulhas dos próximos povoados já estejam de sobre aviso a nosso respeito. Por isso decidi sairmos de nossa rota original e vagarmos pelas terras baixas por uns tempos, para limpar a barra.
Com certeza será mais tranquilo mas em compensação a possibilidade de acharmos peças para consertar a moto avariada diminui muito. Tenho que impor muita moral nessas moças pois minha intenção na próxima cidade e ter uma estadia amigável e quem sabe até conquistar a confiança dos nativos.
Não vai ser fácil, muitas de minhas pupilas estão ovulando e se você não sabe o que isso significa para uma DARIANA, eu recomendo que sendo homem, nem chegue perto de uma delas quando estão nesse estado a não ser que esteja com muita disposição sexual. Se a lua estiver cheia então fuja! Elas ficam totalmente malucas.
Eu por ser mais velha já não tenho uma vontade tão impotente contra minha própria libido, mas eu também adoro sexo, e muito!
Sempre lembro de pensar que a melhor coisa do mundo sempre existiu independente da tecnologia. Prova de que a Deusa é bondosa. Adoro minha moto, adoro roupas de tecidos sintéticos e adoro visores ultra ópticos. Mas nada disso se compara a sexo.
Dizem que há alguns milênios atrás houve sociedades que consideravam o sexo como uma coisa maligna, que destruía o espírito humano. Só mesmo uma hipocrisia absurda e uma maldade monstruosa poderia construir um pensamento desse tipo. Não consigo acreditar que isso seja concebível.
É certo que muitas coisas melhoraram nos últimos séculos afinal os Iones surgiram há pouco mais
de 400 anos, e mesmo nós DARIANAS fomos uma evolução posterior ao surgimento dos homo
superiors. Sei que há algum tempo atrás ainda haviam mulheres que na minha idade já estariam com rugas. Pior ainda! Ouvi falar numa tal de pausa na ovulação que lhes eliminava o desejo sexual! Eu me mataria.
Mas não consigo entender uma sociedade que tornava a fonte da vida, do amor, do prazer, justamente na fonte da morte.
Estou me empolgando, o dispositivo de gravação piscou em alerta as oscilações de meus pensamentos. Se quero continuar gravando tenho de me manter concentrada. Isso eu sei fazer, as vezes consigo gravar até músicas.
Agora, passada a última curva, avistamos sinais de povoado. Já não era sem tempo. Vimos um
veículo aéreo cruzar ao longe violando a
Lei de Cobertura. Incrível! Violando uma das poucas
leis desse território. Se estiver ao nosso alcance vamos derrubá-lo.
As meninas estão empolgadas, é hora de parar e conversar com elas, algumas merecem uma bronca séria desde que saímos de Nova Kalma, mas preciso ser mais suave nesse momento. Não quero excitá-las ainda mais.
Está na hora de ser mãe. O sol acaba de se esconder, o vento está fresco e agradável. Não há sinal de vida além da fumaça da cidade logo a frente. A placa diz Nova Altéia, população 1500 habitantes.
Acho que vai ser bom.
|
|