Totalmente decepcionado com o filme THE SUBSTANCE (2024), tão entusiasticamente badalado em sua época de lançamento. De certo, ter demorado a vê-lo e ser bombardeado por elogios hiperbólicos o elevando a um patamar de perfeição cinematográfica aumentaram minha expectativa, mas estou perfeitamente seguro de que se o tivesse visto à época, e com bem menos informação prévia, minha opinião teria variado pouquíssimo.
De qualquer modo, consolida ainda mais (como se precisasse) que estamos numa era onde o sugestionamento perceptual midiático atingiu uma supremacia inédita. Cada vez menos pessoas veem um filme com sua própria subjetividade, e sim, tem sua percepção moldada previamente antes de vê-lo, e então só o assistem para reafirmar o discurso. Outrora, isso ocorria graças a "autoridade" dos portais de mídia, dos grandes veículos de comunicação, dos críticos profissionais, amplamente pagos e padronizados por lobbys econômicos, sendo o público geral um mero receptor passivo.
Hoje, embora todo o lobby continue existindo, talvez até amplificado, o público tem uma agência muito maior graças à internet, mas isso não lhe dá mais autonomia, pelo contrário! Está ainda mais submisso a "opinião" fabricada pela grande mídia, de modo que milhões de pessoas podem não ter tido contato direto algum com esses influenciadores, mas ainda assim mimetizam suas percepções e opiniões de forma indireta, em grande parte construída por memes (no sentido real do termo), resultando numa forma muito mais sutil, e mais eficiente, de submissão à manipulação.
Só isso para explicar tamanha veneração a um filme ao ponto de repetir os entusiasticamente mesmíssimos cacoetes mesmo por quem não teria a menor ideia do que eles significariam originalmente, e permanecerem cegos para o óbvio.
Já passando para os SPOILERS, lembremos que se trata de uma estória onde a celebridade hollywoodiana Elizabeth Sparkle, maravilhosamente interpretada pela maravilhosa Demi Moore, em decadência devido a idade, apela à tal exótica e jamais explicada Substância para produzir uma versão jovem de si mesma, de nome simplíssimo "Sue", interpretada pela bonitinha mas ordinária Margaret Qualley, que, pelo amor da Deusa, não chega aos pés de Demi Moore, mesmo hoje!
Aliás, note que Demi Moore já tinha 61 anos quando interpretou Elizabeth Sparkle, que na estória tem 50! E ainda assim teve que ser artificialmente enfeiada para que Margaret Qualley, aos seus 30 anos, conseguisse tornar verossímil a ideia de ser incomensuravelmente mais bonita. Sim, ela é linda! Mas sem chance de entrar pro panteão das deusas onde Demi Moore já reina!
E sim, a intepretação das atrizes é excelentíssima, bem como a sequência de abertura e uma série de símbolos amplamente explorados, havendo muitos méritos no filme. Mas ainda assim o considero muito abaixo do que tem sido considerado, e volto a dizer, mais uma vez, incompreendido, porém no sentido inverso, sendo visto como algo que não é.
1° O filme não é realmente sobre padrões de beleza, sobre Beleza Inatingível, sobre a exploração da mídia etc. Ao menos este não é foco principal, e sim, apenas o pano de fundo que desencadeia uma boa e velha fórmula clássica, absurdamente óbvia, mas que a grande maioria dos críticos que o elogiaram parece nunca ter ouvido falar. O filme, é apenas mais uma releitura do livro STRANGE CASE OF DR JEKYLL AND MR HYDE (1886), no Brasil conhecido como O MÉDICO E O MONSTRO. A única diferença crucial, além da ambientação, é que o tema se desloca da questão da virtude moral para da estética corporal, mas em essência, a dinâmica é praticamente a mesma com a parcial exceção do frenesi final que tanto divide opiniões;
2° Não se trata de uma obra que mereça o título de Ficção Científica, apesar da aparência, por apresentar um conceito absolutamente absurdo, bizarro, sem qualquer sentido e com regras totalmente delirantes que só fazem sentido estético e poético. A tal substância não é, como eu e muitos pensaram inicialmente, uma espécie de droga que promove rejuvenescimento, mas um fluido mágico que promove um evento absolutamente sobrenatural que cairia muito melhor num pano de fundo de magia, e apenas tem uma roupagem de medicamentos modernos com um método que simula procedimentos contemporâneos. Embora o próprio Dr Jekyll and Mr Hyde já apresente essa "modernização" de um conceito essencialmente mágico, o filme A Substância leva isso ainda mais longe, pois ao menos a "poção" que Jekyll tomava promovia uma transformação muito mais discreta, ao passo que neste filme temos uma "criação" completa de um novo corpo em questão de minutos, "saindo" do outro corpo ao estilo Alien, numa absoluta falta de senso mínimo de plausibilidade;
3° Isto, por si só, já destrói qualquer possibilidade de leitura realista da obra, nem mesmo como metáfora, pois até o modo como ele tangencia a realidade possui incoerências que inviabilizam qualquer comparação. Por exemplo, a regra exige tempo igual de manifestação para a Matriz, o corpo original, e a versão aprimorada, de no caso uma semana. Isso tornaria, no mundo real, absolutamente impossível que uma celebridade atingisse tamanho nível de estrelato, tendo que se ausentar totalmente por metade de seu tempo. Nenhum contrato toleraria isso! Ademais, não parece haver qualquer curiosidade para descobrirem sobre o passado de Sue, Ninguém nem quer saber seu sobrenome! Não existem paparazzi ou revistas de fofocas que escrutinam detalhes da vida das celebridades!? Como assim ninguém se deu conta de que ela mora no mesmíssimo apartamento de Elizabeth Sparkle, e mesmo assim ninguém jamais viu as duas juntas!?
4° Desde o início, o filme já possui umas sutis notas de surrealidade, que vão se intensificando suavemente, até subitamente explodirem na sequência final capotando num pandemonium de gore onde é impossível saber o que é sonho (pesadelo) ou o que é realidade, o que já vinha acontecendo ao longo do filme de modo mais sutil. Mas se o comportamento grotesco de Harvey (Dennis Quaid) antes parecia apenas uma dissonância surreal numa narrativa que por um momento pareceu realista, depois ele parece se tornar o que menos choca naquela sequência final onde absolutamente nada faz o menor sentido, principalmente o comportamento da plateia;
5° Essa oscilação entre estilos que variam do Horror, Suspense, Comédia, e sobretudo do plausível ao alucinógeno, impedem qualquer leitura coerente do filme, a começar pela feminista, que com certeza dita a tônica da recepção da crítica. Por exemplo, na sequência onde algo, muito brevemente, parece emergir da nádega da protagonista diante das câmeras, toda a gravação é pausada e então a edição começa a escrutinar as imagens quadro a quadro, diante de dezenas de pessoas, para tentar confirmar o que se tinha visto apenas de relance. Isso tem sido tomado como uma ilustração do excesso de atenção midiático sobre o corpo feminino, como se fosse uma alegoria sobre o quanto, ao menor sinal de possível defeito, se pode desencadear uma verificação obsessiva. Mas a partir do momento em que a sequência se mistura com um sonho, pode ser lida apenas como uma obsessão da própria personagem e do modo como ela se cobra por sua própria aparência, ou sente que as outras pessoas o façam;
6° Elementos assim fazem com que qualquer leitura de tom feminista só seja possível, como sempre, fora do filme, e com base nos estereótipos imagéticos mais banais mesmo quando eles são essencialmente desmentidos pela narrativa. Como dizer que temos um retrato geral das consequências pessoais que a pressão midiática sobre a imagem tem sobre as artistas, quando, no entanto, é desde sempre evidente que a personagem em si é problemática ao ponto da implausibilidade. Como assim, além de solteira e sem filhos, ela não tem família, amigos, nem ninguém que minimamente se importe com ela?! A imensa maioria das celebridades em condição análoga jamais passou por algo similar, e o máximo que se pode fazer é uma comparação hiperbólica com relação as cirurgias plásticas ou outros procedimentos estéticos. Porém, no mundo real, tais intervenções jamais funcionaram para prolongar a "vida útil" de quem vive profissionalmente da beleza, e sim para "turbinar" a beleza em seu auge! Houve até quem tivesse o surto esquizofrênico de dizer que o filme critica, ou mesmo destrói, os padrões de beleza, quando a própria essência narrativa é uma afirmação desse mesmo padrão!
Mas não é a primeira vez que vejo, ou que falo disso. Desde 2021 tenho dito que os produtores descobriram como tentar satisfazer o público em geral e a militância feminista ao mesmo tempo: basta fazer um filme normal, voltado ao grande público, e por fora inventar que ele possui uma crítica ao “machismo” embutida. Mesmo se não houver, feministas jurarão que está lá! E assim, toda a crítica especializada de alto escalão não terá opção a não ser elogiar rasgadamente o filme, temendo ser cancelada por divergir do consenso, gerando então o efeito cascata.
Só isso explica como um filme no máximo... razoável, voltado para apreciadores das nojeiras grotescas do Terror Gore que fizeram muita gente vomitar, estar sendo tão celebrado como se fosse uma obra filosófica de grande complexidade que descortinasse questões profundas, quando o que temos é apenas ou outro nível de exploração incomensuravelmente mais objetificante em termos sensuais, com closes quase inéditos no corpo das protagonistas, só menos chocantes devido ao corpo magrinho da atriz que interpreta Sue, pois esses mesmos closes em Demi Moore na época de Striptease (1996) teriam relegado o filme a categoria pornográfica!
Fico perguntando que raio de substância gente por aí anda tomando para alucinar desse jeito.
Importantíssimo, apesar da linguagem e apresentação meio "adolescentes", esse conteúdo expõe de forma clara uma verdade estrutural a respeito do fato de que os EUA sempre foram essencialmente "nazistas".