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26 de Julho


25 de Julho

Entre 24 e 27 de Fevereiro de 2024, publiquei nada menos que 4 textos seguidos sobre a série Avatar: The Last Airbender, na ocasião da estréia da primeira temporada da série Live Action da Netflix, comentando-a, comparando-a com a série original, e com o filme de 2010, de M. Night Shyamalan.

Agora, com a segunda temporada da série Live Action, e na iminência de estréia do filme animado Avatar Aang, que infelizmente não irá para os cinemas, só me resta reforçar o quanto essa série da Netflix, apesar de alguns bons momentos e alterações, no geral minora a série original, com alguns aspectos que beiram ao ofensivo.

De certo modo, todos os problemas da primeira temporada reaparecem aqui amplificados: artificialidade nos cenários, com uma espantosa pobreza de locações, em especial cenas internas; encurtamento e mistura de arcos com alterações quase abusivas, e alterações no comportamento dos personagens que beiram à inversão, embora, neste caso, em alguns aspectos para melhor.

Por exemplo, Soka, talvez a mais fiel transposição de personagem, que aqui adquire uma presença heróica e habilidade de combate muito acima do que se via no desenho, a não ser na reta final da terceira temporada. Alteração que seria perfeita não fosse a manutenção da dimensão cômica do personagem terminar por tensionar isso.

De início, poucas alterações relevantes ocorreram em Katara ou Zuko (embora este ainda não se junte ao grupo), mas o simples crescimento do ator Gordom Cormier, que faz Aang, que espichou uns 30cm entre o fim da 1a e início da 2a temporada, forçou os produtores a alterações delicadas. Uma delas, porém, viria de forma apressada a corrigir uma imperdoável falha da temporada anterior que foi o fato dele não ter aprendido a dobra de água, que era, na série original, nada menos que o tema título da temporada!

Pois depois dessa inexplicável deturpação do material original, que até o filme de Shyamalan respeitou, os produtores decidiram iniciar a segunda temporada com ele já dominando a nova técnica, deixando todo o seu aprendizado e evolução em off!

Voltando ao tema dos cenários, chega a ser constrangedora a sequência da festa no palácio imperial de Ba Sing Se com tão poucos figurantes e cenário tão pobre, quando pura e simples CGI poderiam fazer uma sequência melhor. Por exemplo, veja a terceira temporada de A Roda do Tempo, no Prime Vídeo, que teve um orçamento bem menor, e note como as cenas de eventos na Torre Branca das feiticeiras Ars Sedai, ou na corte de reino de Andor, são muito mais impactantes fazendo um bom uso de cenários e figurante reais com retoques digitais, gerando um efeito muito mais convincente, imersivo e belo. Como raios a Netflix, com muito mais dinheiro por episódio (cerca de 17 milhões contra 13 milhões de The Wheel of Time) não consegue ter um resultado que sequer cheque perto?!

Que não venham com a desculpa da fotografia ser mais colorida e viva, e artificial, pois isso não seria empecilho para uma boa pós-produção em CGI. A impressão que fica é de um desleixo inacreditável! Quase um desrespeito ao espectador! Fazendo com que o que deveria ser uma cena de pompa e requinte dignos do Palácio Imperial Chinês parecer uma festa temática com cosplays!

Continua a bizarra situação de que, mesmo tendo tanto tempo ou mais quanto a animação original, cortarem conteúdos como se fossem um filme de cerca de 2 horas. Ter colocado a biblioteca perdida de Wan Shi Tong dentro do Reino da Terra cortando a formidável sequência do deserto não parece decisão econômica, em compensação, o modo como o Professor Zei foi apresentado enriqueceu a dimensão intelectual da busca, pena que o seu final estrague tudo. Já Jet teve uma reinterpretação mais heroica que engrandeceu o personagem, lembrando que no original, ele nunca esteve na biblioteca.

Mas algumas espantosas incompreensões básicas sobre a mais elementar psique humana continuam ocorrendo na série. Os recém chegados entram em Ba Sing Se, uma megalópole que nenhum deles jamais sonhou na vida, e dentro do trem que praticamente "sobrevoa" a estupenda cidade, NENHUM DELES SEQUER OLHA PELA JANELA! Meu Deus do Espaço! Que retardamento esse produtores tem na cabeça para sequer cogitar algo assim?! Toph Bei Fong talvez seja a melhor personagem em cena, um pouco diferente, mas tão boa ou até melhor que a original, e mesmo as alterações de seu arco e papel de sua família foram inovações bem vindas. Mas a horrível sequência da briga entre os personagens após uma série de desentendimentos quase afunda a série, por ser muito mais pesada e revelar um Aang mais imaturo que o da temporada anterior, e totalmente afastado de qualquer inspiração típica do Avatar.

A remoção de quase tudo que havia de mais impressionante na obra original, em especial a perfuratriz colossal que perfura as muralhas de Ba Sing Se, é uma tendência que continua deixando essa nova versão no limiar da ruína. Mas ainda assim, há elementos compensatórios. O arco de Zuko não está pior, e ainda que alguns reclamem da retratação de Azula, Tai Lee e especialmente Mei, não foi algo que tenha me incomodado. Mais incomodou a postura estranha de Soka perante Suki (que teve seu papel amplificado) mais uma vez gerando uma certa inconsistência no amadurecimento do personagem e até em sua aparência mais adulta.

Em suma, não que a série Live Action seja um total fiasco, mas a sensação de desperdício de oportunidade é chocante. Pelo amor da Deusa, jamais deixe sequer passar pela cabeça que ela substitua o original. NÃO! Mais vale rever o original várias vezes do que assistir apenas essa versão da Netflix, pois cada pessoa que se satisfaça com essa série e deixe de ver a animação original comete um crime. Se estiver sem tempo, IGNORE o Live Action e vá direto pro desenho! Até o tempo total de cada temporada é mais ou menos o mesmo.

E não deixe de conferir meus textos anteriores.

Resta agora esperar o novo filme animado que deve estrar amanhã.

19 de Julho


7 de Julho

Em 3 de Março de 2024 publiquei um texto sobre o trailer (somente o trailer) do filme Spaceman, da Netflix, comentando também algumas persistentes tolices da má FC. Em 1° de Julho passado publiquei outro texto após finalmente ver o filme, e hoje decidi comentar sobre o livro no qual se baseou.

Titulado no Brasil apenas como "Astronauta", em inglês como "Spaceman of Bohemia" e no original tcheco como "Kosmonaut z Cech", a obra do escritor tcheco-americano Jaroslav Kalfar não é exatamente Ficção Científica, parecendo cair mais num tipo literário similar ao nosso "Realismo Fantástico", e onde os conceitos de astronáutica, programa espacial e ciência são evocados com extrema imprecisão, quase ao nível da debilidade, como, por exemplo, já no começo da obra (5a página): "Quase um ano e meio antes, um cometa até então desconhecido entrou na Via Láctea vindo da galáxia Cão Maior e varreu nosso Sistema Solar com uma tempestade de areia intergaláctica cósmica. Uma nuvem se formou entre Vênus e a Terra, num fenômeno sem precedentes denominado Chopra..."

Com a noção infantil de que um cometa poderia vir de dezenas de anos-luz de distância para nosso sistema solar em 1,5 ano, não é de se surpreender que o autor acredite ser possível se comunicar da Terra à Vênus em tempo real. Algo que o filme, apesar de aumentar a distância ainda mais para Júpiter, ao menos inventa uma tecnologia ficcional superluminal, o CzechConnect.

Infelizmente, gostei pouco da obra, que é bem diferente da versão da Netflix, que decidiu remover grande parte do conteúdo e, devo dizer, talvez sabiamente, ainda que haja coisas interessantes nestas partes removidas.

Mas antes, sim, aquilo que suspeitei desde o princípio, há 2,5 anos atrás, e confirmei há um mês vendo o filme, no livro é ainda mais evidente. Hanus, a suposta "aranha gigante alienígena" não existe fisicamente. Porém, aqui elimina-se, ou ao menos atenua-se, uma dúvida que persistia, pois no filme ainda parece possível que seja apenas um delírio puro do protagonista, mas o livro reforça muito a possibilidade de ser sim uma criação mental da nuvem de Chopra, uma "manifestação ilusória de uma inteligência extraterrestre" conforme eu supus em meu primeiro post.



- - - SPOILERS - - -

Isso ocorre porque há uma outra expedição espacial onde um dos tripulantes, e somente ele, também passa a ter alucinações, só que no caso apenas auditivas. E o mais interessante, ele enlouquece numa espécie de paranoia de revelação divina e de certa forma passa a tratar o protagonista como um profeta que, este sim, teve o privilégio de ver a entidade.

Essa outra expedição faz parte de uma Frota Cosmonauta Fantasma Russa, isto é, um programa secreto de exploração espacial que teria, desde sempre, feito missões ocultas no espaço, mesmo antes de Iuri Gagarin, e teria inclusive enviado cosmonautas (um termo predominantemente usado pelos russos) para a Lua. Trata-se de uma teoria conspiratória real, em parte baseada num temível preconceito não apenas russofóbico, mas "misorusso!" No sentido de, os russos são tão maus que sacrificam e escravizam até astronautas, e muitos deles morreram anônimos e esquecidos em favor do desenvolvimento científico e militar russo.

E não se trata de mero anticomunismo, o autor é escancaradamente misorusso! Independente de ser o período soviético ou o atual. Críticas ao período socialista na República Tcheca são onipresentes na parte mais "histórica" da estória, quase totalmente omitida no filme. Há críticas pontuais ao capitalismo e liberalismo de mercado também, mas naquele esquema onde, após meia hora falando mal do regime anterior, do comunismo e dos russos, lança uma criticazinha como quem quer dizer "Mas eu também não gosto muito do liberalismo não, ok?" e então volta a passar mais meia hora falando mal dos russos.

Não é isso que torna a obra ruim, até pelo contrário. Essa parte que puxa o histórico da República da Tchecoslováquia, passando pela ocupação nazista, a República Socialista da Tchecoslováquia, até a Revolução de Veludo, é na verdade o que há de melhor no livro. Ao menos não temos que aguentar as lamúrias do personagem principal, Jakub Procházka, em sua fase adulta com direito a frustrações patéticas ao pior estilo de personagens de Fernando Sabino.

Mas a subserviência do autor ao atlantismo chega a irritar. Numa feita, Klara, uma das cosmonautas do Programa Fantasma Russo que salvou Jakub da morte após sua nave ser destruída, chega a dizer "...estou cansada dos homens desprezíveis que comandam impérios (...) assim que eu voltar para a Terra, vou me mudar para o Ocidente..." o que é estranhíssimo vindo de uma cosmonauta de alta patente que trabalha num programa ultra secreto e que já havia declarado viver num mundo "paralelo" longe das vistas do público.

Mas o que acontece depois? Jakub causa a morte dela, e dos demais, no retorno à Terra para escapar de um destino como prisioneiro ao qual ela própria havia lhe avisado. Ela acaba morrendo em profundo ódio, tentando matar o personagem principal que, por outro lado, meio que se apaixonara por ela e até tentou por um momento salvá-la.

E isso nem é das piores coisas que tornam o Jakub do livro, diferente do personagem amável do filme interpretado por Adam Sandler, extremamente desagradável! É impossível simpatizar com um "herói nacional" que termina admitindo que sequer sabe pra quê foi ao espaço e se arrependeu em menos de um mês de viagem! Mesmo sabendo que no total não ficaria sequer 9 meses fora! Tempo que sua esposa, Lenka, também não aguenta, gerando todo aquele drama também explorado no filme, mas agravado no livro.

Sim, por que apesar de ao menos saber que a viagem para Vênus demoraria 3 meses, o autor acredita que a viagem de volta, numa missão de alguns dias perto do planeta, duraria o mesmo tempo! O que exigiria ou uma nave muitíssimo mais rápida que as atuais (e não há qualquer menção a tecnologias mais avançadas que a nossa) ou uma péssima noção da astrofísica orbital envolvida.

Mas Ok, o livro não é sobre isso, e sim sobre um drama existencial de um homem que sequer é admirável sob qualquer ponto de vista. Há bons momentos na leitura, e não a considero de forma alguma um desperdício. Mas em muitos momentos me lembrou o que há de pior em obras não exatamente do mesmo gênero, mas de gêneros diferentes. Em especial, a transformação do alcoolismo quase que numa religião tamanha sua veneração. Nesse ponto, os boêmios não nos legaram o significado deste nome por acaso, e devem se dar muito bem com os estadunidenses. Também irrita o tanto que os rompantes poéticos do autor introduzem conceitos chulos e linguagem baixa durante esforços de reflexão que, se melhor conduzidos, talvez levassem a considerações profundas.

A estranha aparência de Hanus também não é melhor explicada, além de ser evidentemente diferente. Chega a ser dito que ele tem mais de 30 olhos! E o pouquíssimo que chega a ser dito sobre sua suposta origem talvez seja demais, pois só serve para enfraquecer a ideia do ser como uma projeção metafórica do inconsciente de Jakub, perdendo tempo numa bizarra narrativa de como sua espécie põe ovos no espaço, os filhotes descem a um planeta onde se banqueteiam com estranhos vermes que são frequentemente comparados a Nutella (SIM!) e depois voltam à órbita para se preocupar com os Gorompeds, as criaturas decompositoras que eventualmente terminarão os levando a morte. Talvez, uma das poucas metáforas que poderia ser interessante se melhor desenvolvida.

O personagem, após sua volta à Terra, chega a "capturar" um e guardá-lo num vidro para experiências que mais parecem torturas. Mas como somente ele interage com a criatura, jamais tendo sequer a ideia de mostrá-lo a mais alguém, só reforça a ideia de ser uma alucinação persistente que desaparece e reaparece inexplicavelmente. Aliás, a obstinação de Jakub em nada falar de sua suposta experiência exobiológica com quem quer que seja, sugere que ele próprio, no fundo, sabe que tal experiência é ilusória, e não quer sequer correr o risco de que alguém o exponha.

O filme, afinal, aborda cerca de 1/3 do livro, tendo muitíssimo pouco do passado de Jakub, que resume o papel de seu pai como torturador e interrogador do governo anterior a uma única cena isolada, omitindo toda a vasta trama correlata, que gira em torno da importante figura do Homem do Sapato, uma das vítimas de seu pai. Também nada há do contexto do pós-retorno, até porque no livro, todos pensam que ele morreu na tentativa de colher amostras da Nuvem de Chopra, pois o resgate pela nave fantasma russa é absolutamente secreto.

Ele permanece oculto após desviar a nave, matar os russos e escapar, fazendo de conta que a muito frisada deterioração física da longa permanência no espaço não existe quanto convém à narrativa, pois isso não o impediu de nadar longas distâncias, correr pela floresta, escapar de cães perseguidores e conseguir sair de algum local distante da Rússia até a República Tcheca. Tudo isso ANTES da fisioterapia de reposição muscular!

Talvez eu faça um vídeo a respeito. Mas fica aqui meu breve review sobre essa curiosa obra de um autor ao qual não nutro a menor vontade de ler de novo, mas cuja comparação com o filme, e alguns temas adicionais, ao menos rende algumas reflexões.

Por fim, não dou notas a livros, ou filmes, mas se fosse dar estrelas seriam duas, pois ao menos consegui ler o livro até o final. Não chega ao pés de Project Hail Mary, com o qual guarda similaridades superficiais, como comentei no post anterior, ainda maiores quando comparados os livros invés dos filmes, mas ao mesmo tempo que acentuam ainda mais o abismo de qualidade entre as duas obras, esta última à qual eu daria 5 estrelas.

5 de Julho


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