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25 de Janeiro


22 de Janeiro

Poucos posts não comerciais me irritam mais do que os desse pessoal que acha que todo mundo tem que estar ligado na Globo ou outro veículo da Grande Mídia o tempo todo. Pois postam coisas sem contexto e somente inteligíveis para quem está acompanhando A Fazenda, Big Brother ou a última fofoca do dia sobre alguma celebridade.

A pessoa tem a poderosa e revolucionária internet nas mãos, e invés de usá-la para se livrar da infâmia da Grande Mídia, a utiliza para deixar a maldita ainda mais poderosa!

1° de Janeiro

E finalmente encerrou-se uma série sobre a qual nunca falei publicamente, mas que sempre acompanhei, inclusive, revendo na íntegra neste último mês para me preparar para o episódio final da noite passada. Aproveitando para inserir meus filhos mais novos no universo, o que me obrigou a assisti-la dublada (aaarrrghh...).

Gostei bastante de toda a série, discordando totalmente dos que a acusaram de piorar progressivamente, e tudo o que se possa dizer contra as temporadas mais recentes já estava claramente adiantado desde os primeiros episódios. A homossexualidade de Will foi levantada desde os primeiros episódios, me lembrando muito reações comuns às crianças de minha época, (nos 70/80 onde ninguém sequer sonharia com a tal "Lacração") quando se notava certos comportamentos divergentes em alguns coleguinhas, apesar da negação sistemática de mulheres adultas, com mil e uma desculpas para justificar comportamentos que qualquer moleque, instintivamente, sabia ser revelador.

Não que a série não tenha tido seus problemas efetivos, a começar pela temática do bullying que chega às raias do delírio na quarta temporada, ou do "Machismo" empresarial que se vê na terceira contra a personagem Nancy, ao trabalhar num jornal onde absolutamente nenhum dos homens, os diretores, faz qualquer outra coisa a não ser esnobá-la e se divertir o tempo todo, não se vendo sequer uma vaga simulação de um mínimo de atividade profissional.

Alguns podem reclamar da notória propaganda anti-soviética, mas o objetivo da série sempre foi replicar o espírito oitentista tão celebrado atualmente, e série dos anos 80 sem propaganda anti-comunista não existe!

Assim, digo novamente, a meu ver todas as temporadas funcionaram muito bem, apesar de alguns pesares, com a exceção desta última, e em especial devido ao tão esperado episódio final lançado às 22:00 de 31 de Dezembro.

A série não "lostou-se" como muitos temiam, e ainda achei o resultado posivito, mas alguns ponto são impossíveis de não serem notados e criticados, e acho que mais irá decepcionar que agradar aos fãs. Ei-los.

1 - A temática do bullying perpassou praticamente toda a série, mas de um modo ou de outro, os bullies sempre foram punidos. Nesta última temporada, esta foi a única vez que isso não ocorreu. A agressão que Dustin sofreu logo no primeiro episódio, extremamente violenta, foi completamente esquecida, quando toda a audiência certamente queria uma vingança! É certo que a evolução de Dustin como personagem alterou bastante a dinâmica da cena, visto que ele não se intimidou em momento algum, lutou até o fim e a agressão custou algo aos bullies, mesmo assim, faltou a revanche.

O que tivemos foi uma inexplicável vingança contra o diretor da escola por meio de um discurso desrespeitoso de formatura que deixa o espectador ocasional pensando que há um arco notável por trás disso. Mas jamais houve! A cena é gratuita e de mal gosto! Os corpo docente da escola nunca foi um problema, aliás, praticamente sequer aparecia. O pouco que se sabe deste diretor foi dito em brevíssimos diálogos, não havendo sequer como o público desgostar dele.

2 - A insistência na total desassociação entre os heróis e as autoridades pode ter seu charme, mas aqui atingiu um nível não apenas inverossímil, mas até contraditório. Não foi possível entender por que raios personagens como o Tenente Coronel Jack Sullivan, que só aparece a partir da quarta temporada, enfiou na cabeça que tudo o que acontecia era culpa da Onze, mesmo quando os doutores Martin Brenner (Papa) e Sam Owens não apenas atestavam o contrário, mas poderiam facilmente prová-lo com um sem número de evidências documentais incluindo filmagens!

Ainda mais estranho é a atitude da Dr. Kay, da quinta temporada, interpretada pela estrela dos anos 80 Linda Hamilton, que mesmo não odiando Onze como o fazia Sullivan, só pensava em usá-la contra os soviéticos mesmo quando era totalmente evidente que estavam diante de uma ameaça cósmica muito mais terrível e direta contra a qual Onze era a melhor arma. A situação pedia uma aliança entre os militares e os heróis, mesmo que temporária, até por que na quinta temporada Sullivan viu, e viveu o suficiente para contar a seus superiores, a respeito de Vecna! Mas o que se viu é um grupo de adolescentes e alguns adultos, dos quais só dois tinham efetivo treinamento militar ou de inteligência, tendo que enfrentar, e derrotar, todo um exército, de modo mais inverossímil do que enfrentar a ameaça sobrenatural de Vecna e do Mind Flayer!

Pior, o final então se torna completamente non-sense, pois é como se uma vez derrotados os monstros, o exército tivesse simplesmente se esquecido que os heróis mataram dezenas de soldados e oficiais, destruíram tanques, equipamentos, helicópteros e causaram a destruição de uma base militar inteira de um modo que, isso sim, não tinha como ser explicado. Então, como assim, depois de tudo, estava todo mundo livre, leve e solto, como se nada tivesse acontecido?

Ao menos poderiam ter inserido, naquela interminável enrolação da metade final, o retorno do Dr. Sam Owens (interpretado pelo incontornável astro dos anos 80 Paul Reiser), que sempre foi aliado dos heróis e uma figura importante no governo! Mas o personagem foi esquecido!

3 - Falando em personagens abandonados, também senti falta da Suzy, a namorada hacker do Justin, que foi reduzida quase a um Deus Ex-Machina conveniente, e bem que merecia participar, mesmo que remotamente, do final. Mas é claro que nada disso se compara à oportunidade perdida a respeito dos quatro mártires das temporadas anteriores, pela ordem: Bárbara, Bob, Billy a Eddie.

Pelo amor da Deusa! O público pediu, implorou, se ajoelhou! Por que raios não atendê-lo?! Eu próprio estava apostando que os 4 voltariam em grande estilo, no caso, como memórias na mente de Henry/Vecna ou do Mind Flayer, e teriam um papel relevante, por exemplo, na salvação das 12 crianças ou coisa que o valha. Seria uma forma de homenagear os personagens, conectar maravilhosamente as temporadas anteriores e ressignificar tudo. Lembrando que Bárbara, na primeira temporada foi morta no Upside Down pelo primeiro Demogorgon, Bob (nosso inesquecível hobbit Samwise) por outros demogorgons no laboratório próximo ao portal, Billy foi morto pelo próprio Mind Flayer após este praticamente integrá-lo em sua mente "coletiva", e Eddie também morreu no Upside Down por aqueles morcegos do Vecna.

Ou seja, todos estavam de algum modo conectados ao Upside Down, Vecna e Mind Flayer. Não fazer algo assim foi talvez a maior oportunidade perdida da história da TV! Algo que com certeza mudaria a percepção do público a favor do final da série.

4 - Sempre gostei da ideia de redimir personagens malignos e sempre achei mais interessante que o Mind Flayer, e não Henry/Vecna, fosse a origem de todo o mal. Bem, foi exatamente isso que fizeram, no entanto, introduzindo um fato novo de que Henry era uma criança normal, até benevolente, até o traumático ocorrido na caverna, onde tentando ajudar, foi vítima de uma violência, e então surtou, manifestando uma agressividade que talvez nunca aflorasse se tal evento não tivesse ocorrido. Então, vimos que na realidade seus poderes sequer lhe eram intrínsecos, e sim vieram também do Mind Flayer, e por decorrências, os de todas as crianças paranormais.

Ora, afinal, o Mind Flayer, que já aparece no começo da segunda temporada, era mesmo a origem de tudo, e retorna em grande estilo para batalha final. Mas...

Se não era para redimir Henry, então por que introduzir esse tema?! O personagem já não estava devidamente estabelecido como O Grande Vilão, para o qual o Mind Flayer era apenas uma espécie de parceiro ou veículo? No final, Vecna que era o veículo, e só um dos veículos, do Mind Flayer, e a ideia do trauma na caverna, o santuário de Holly, a própria reação dela quando descobre a memória etc, ficariam muito mais coerentes se ao final Henry tivesse alguma redenção e se juntasse aos heróis como o próprio Will falou, mesmo que fosse para morrer num sacrifício final. Pra que aquele diálogo, revelador e bombástico, para ao final não dar em nada?! (O mesmo desperdício ocorre com o discurso de Hopper para Onze, que é totalmente jogado fora com o desfecho da estória.) Ficaríamos, inclusive, livres da cena final de Joyce decapitando Vecna que, sinceramente, achei de péssimo gosto, e já não seria de bom tom mesmo que ele fosse o vilão supremo! Ora, o próprio Will estava pronto para perdoar Henry, por que sua mãe não poderia?

5 - E por fim, todos os "easter eggs" sobre viagem no tempo que foram exaustivamente jogados na tela nesta última temporada não tiveram sentido algum. Todo mundo apostava que as referências a De Volta para o Futuro, Uma Dobra no Tempo e Buracos de Minhoca para o passado terminaram não dando em nada, frustrando um sem número de fãs que chegaram a apostar em viagens no tempo para salvar Eddie ou os demais mártires das outras temporadas. Dá a nítida impressão que não sabiam bem o que fazer e atiraram pra todo lado.

Enfim, essas são alguns dos problemas que a temporada final falhou em lidar, ou mesmo introduziu, me levando a considerá-la em algum grau inferior às demais mesmo que tenhamos tido uma batalha final interessante. Nem vou comentar o fiasco que foi a saída de armário de Will, algo que poderia chocar uma família tradicional numa vida tradicional, mas que soa ridículo se tratada como uma revelação bombástica numa situação apocalíptica, onde até a confissão de um assassinato pareceria irrelevante.

Ainda assim, Stranger Things continua sendo uma das melhores produções exclusivas da Netflix. Um marco na ficção científica televisiva, conectando gerações. Iniciar meu menino de 9 anos no universo da série foi também uma experiência gratificante, tornando-o um fã "tardio".

Uma pena que a série, cujo título é intraduzível*, tenha se abstido de entregar um final épico e indiscutível.

A literal tradução "Coisas estranhas" estaria errada, pois o original não é "Strange Things", mas "StrangeR!" E 'stranger' tanto pode ser um adjetivo comparativo que supera 'strange', significando "mais estranho" (traduções literais plausíveis seriam "Coisas muito estranhas" o "As mais estranhas coisas") quanto é o substantivo 'estrangeiro', gerando um trocadilho que tanto pode se aplicar aos monstros de outra dimensão quanto aos soviéticos.

Achei sensato não traduzir o termo, como aliás deveriam fazer com mais frequência.

Vale lembrar que em inglês não é estranho usar a palavra 'stranger' para seres não humanos, tanto quanto usar a palavra 'alien' no sentido comum de estrangeiro.


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