Este recomendadíssimo vídeo faz uma rica compilação de informações sobre o mito de Lilith que surpreendeu até mesmo o autor de As 4 Damas do Apocalipse, em especial por focar em pontos menos centrais ao imaginário mais difundido, mas por isso mesmo, ainda mais interessantes por expandir o tema tanto em âmbitos da antiguidade quanto da contemporaneidade.
29 de Fevereiro de 2024
Apesar da mitologia das súcubos, bem como a de Lilith, já serem bastante disseminadas nas mídias de entretenimento, ainda assim persistem mais como elementos secundários de ambientações fantásticas mais amplas, ou como personagens coadjuvantes. Mas há notória exceção, ainda que também pouco conhecida: a série de TV canadense cujo nada inspirado título é LOST GIRL (2010-2016), durando 5 temporadas que totalizaram 77 episódios de 45 minutos.
A personagem principal, 'Bo Dennis', interpretada por Anna Silk (o nome da atriz é muito mais interessante que o nome da personagem) é explicitamente uma "súcubo", ainda que de uma categoria bastante diferente das retratações mais disseminadas, sendo fisicamente uma mulher comum com algumas peculiaridades e poderes especiais.
Mais interessante é que, se as súcubos desta série nada tem a ver com as sucúbias de As 4 Damas do Apocalipse, curiosamente, elas são bastante parecidas justamente com o conceito de Absórvitas, visto serem basicamente mulheres com a habilidade de sugar a vitalidade humana, podendo facilmente levá-los à morte, e precisando se controlar para fazê-lo de modo seguro. E sua abordagem varia desde uma abordagem quase "oral" onde a vitalidade é sugada diretamente pela boca, tal como se viu em LIFEFORCE, quanto por meio de contatos sexuais. Além de possuíram poderes de persuasão, controle mental e vigor físico sobrenatural, também podendo recuperar-se de ferimentos graves em poucos minutos sugando a vitalidade alheia.
Importante notar, porém, que o autor de As 4 Damas do Apocalipse jamais teve conhecimento da existência desta série até menos de um ano atrás, quando toda a concepção das absórvitas já estava completamente consolidada.
É irresistível comparar Lost Girl a duas outras muito bem sucedidas séries de temática similar: Buffy, a Caça-Vampiros (Buffy, The Vampire Slayer 1997-2003) e sua spinoff Angel (1999-2004), sendo na realidade até mais assemelhada a esta última devido a sua característica mais “policial”.
No caso, temos em plena contemporaneidade um mundo oculto repleto de seres sobrenaturais que, em geral, passa desapercebido pela maioria das pessoas, mas que uma vez desvendado se releva extremamente vasto e complexo, o que torna a ambientação bastante inverossímil. Pois diferente do que ocorre em As 4 Damas do Apocalipse, onde o sobrenatural é radicalmente afastado no mundo normal por se dar no restrito Super Mundo de sociedades secretas raríssimas, ou nos confins isolados da Terra, nestas três séries, e em muitas outras, esse mundo oculto está embrenhado nas próprias grandes cidades, praticamente com uma criatura sobrenatural “a cada esquina”, e infindáveis ações dessas entidades cujos efeitos, embora não as causas, são direta e amplamente percebidos pela população comum.
Analisando apenas os 13 episódios da Primeira Temporada, Lost Girl, criada por Michelle Lovretta, fica bem aquém do “Buffyverso” criado por Jossh Whedon, o que chega a ser evidente até mesmo nos efeitos especiais, o que só é minimizado devido a ela ser uma década mais nova e contar com novos recursos. A própria direção e edição dos episódios possuem uma narrativa rápida e bastante simplificada apesar de terminar retratando um universo razoavelmente complexo.
Basicamente, a série concebe os Fae, uma nome genérico para se referir a seres sobrenaturais, baseada numa concepção folclórica europeia mais antiga, que viria posteriormente a evoluir para faerie / fairy (“fadas”). Estes Fae incluem as súcubos, vampiros, lobisomens, gigantes de gelo nórdicos, tritãos, fúrias, duendes, e mais um sem número de criaturas distintas das mais variadas tradições, a maioria em forma humana e versões bem inusitadas. Se dividem entre os Fae das Trevas e os Fae da Luz, embora esse alinhamento não seja tão maniqueísta quanto o nome sugere. E grande parte da trama decorre justamente da recusa da personagem principal em se juntar a uma das duas facções, permanecendo como uma Fae independente.
O autor de As 4 Damas do Apocalipse confessa que se esforçou para terminar ao menos essa primeira temporada antes de escrever sobre a série, visto ser praticamente uma obrigação uma vez que envolve tema tão afinado. Mas ao final, apesar dos percalços que envolvem elementos bastante implausíveis além de uma certa fragilidade na mistura dos elementos dramáticos com os elementos cômicos, a séria acaba conquistando, como é comum, pelo carisma dos personagens, para o qual os atores cumprem papel crucial.
Ajuda bastante a beleza das atrizes, pois além de Anna Silk no papel da súcubo principal, sua companheira, Kenzie, é interpretada pela atriz de origem eslava Ksenia Solo, e apesar de sua personagen ser uma humana comum, os olhos da atriz são de um azul quase “sobrenatural” que custa crer que sejam, e de fato são, naturais! Kenzie é a principal responsável tanto pelo “alívio cômico”, frequentemente exagerado, quanto executa regularmente o papel de donzela em perigo, embora não raro, em rasgos de perspicácia, seja ela quem resolva algumas das tramas episódicas. Mas além de frequentemente a personagem ter comportamentos demasiado irresponsáveis num mundo tão perigoso, talvez fosse visualmente mais interessante se ela, que frequentemente muda a cor do cabelo, passasse mais tempo loira, a fim de causar um contraste com a perpetuamente morena Bo.
Outra personagem regular, Laurie, interpretada pela loira Zoe Palmer, também chama atenção como uma humana médica dos Fae, que tem um interesse em Bo que começa científico, mas se torna romântico. E a maioria dos episódios traz novas beldades ocasionais que não raro se envolvem em cenas um tanto sensuais com não raro lesbianismo.
Mas Bo, sendo bissexual, tem como interesse romântico maior outro dos personagens fixos, o policial lobisomem Dyson, interpretado por Kris Holden-Ried, também um personagem cativante, e do elenco masculino destaca-se também Trick, interpretado pelo ator Rick Howland, que mede apenas 1,37m de estatura, embora não sofra das formas mais comuns de nanismo. Evidentemente, seu papel é de uma criatura mística bastante intrigante, poderosa, mas simpática, sendo o principal aliado dos protagonistas. Por fim, dos seis personagens fixos da série, como se pode ver na imagem, o tritão Hale, interpretado por K.C.Hollins, completa o time como o policial parceiro de Dyson, mas traz um ponto baixo que é o fato de quase não utilizar seu formidável poder e nem sequer explorar sua natureza sobrenatural.
Destaque também para a voz inacreditavelmente máscula, misteriosa e fascinante do ator Clé Bennett, que interpreta Ash, o temido líder dos Fae da Luz. Embora apareça numa minoria de episódios, o simples timbre de sua voz é capaz de criar um imediato clima sobrenatural! Não é, porém, uma voz totalmente natural, pois embora ele possua sim uma voz grave e bem empostada, ele a modula de forma mais exótica para o personagem.
O ótimo elenco, então, é o ponto alto da série, além do mistério da origem da protagonista, que se arrasta ao longo de toda a primeira temporada tendo uma resolução bastante interessante. Infelizmente, a temporada não tem um fechamento, pois apesar do clímax, a trama passa para a segunda temporada como se esta fosse apenas mais um episódio, dificultando uma análise mais fechada.
Por fim, é interessante fazer uma comparação da concepção das súcubos de Lost Girl com as absórvitas de As 4 Damas do Apocalipse, visto que praticamente em nada se assemelham às sucúbias desta além daquilo que já se assemelham às absórvitas. Lembrando que aqui, embora exista uma distinção entre ‘súcubo’ e ‘sucúbia’ em As 4 Damas, usarei ‘súcubos’ para me referir somente às personagens “humanas” de Lost Girl, e ‘sucúbias’ para as demônias de As 4 Damas, bem como ‘absórvitas’ para as humanas desta mesma saga que possuem alguns poderes das sucúbias.
Como já dito, o único ponto em comum com a mitologia das súcubos é que as entidades de Lost Girl (tanto Bo quanto outra súcubo que aparece mais ao final da temporada) também sugam vitalidade, mas até o modo como isso ocorre varia.
- As absórvitas são capazes de sugar vitalidade de muitas formas distintas, desde um simples toque, ou um intenso contato corpóreo, mas a depender do nível de desenvolvimento, mesmo a distância. De início, apenas uns poucos metros, mas à medida que seu poder evolui, podendo alcançar dezenas de metros, e com pessoas em especial, seus consortes e irmãs de rede, podem compartilhar vitalidade mesmo a milhares de quilômetros, embora de forma mútua e interdependente. Ao menos na primeira temporada, nada sugere que as personagens de Lost Girl tenham capacidade semelhante, embora sua capacidade de expanda nas temporadas posteriores;
- As súcubos de Lost Girl precisam de abordagem muito mais próxima e direta para sugar vitalidade, preferencialmente pela boca, mas possuem uma inegável vantagem, que é poderem usar seus poderes de dia, o que é impossível para as absórvitas, que só podem fazê-lo muito longe da interferência do Sol. Vale lembrar, que as sucúbias da obra também são absórvitas, mas devido a sua anatomia demônica raramente usam essa habilidade, podendo contar com seus vastos recursos fisiológicos;
- Em Lost Girl as súcubos possuem poderes de sedução bem mais invasivos, podendo, num simples toque, praticamente controlar uma pessoa, homem ou mulher. As absórvitas não possuem qualquer recurso similar (a Linguagem Primordial não é habilidade absórvita). As sucúbias, por outro lado, tem vários recursos físicos, como feromônios e drogas inoculáveis capazes não só de seduzir mas praticamente controlar exclusivamente homens, mas as absórvitas contam apenas com sua beleza e sensualidade para tal;
- De dia, as absórvitas são mulheres comuns, ainda que com capacidades físicas e mentais otimizadas, à noite, sua capacidade física se exponencia ainda mais, e mesmo não tendo exatamente super força, sua capacidade de recuperação é sobrehumana, podendo resistir e se recuperar rapidamente de ferimentos que incapacitariam qualquer pessoa normal. As súcubos de Lost Girl não diferenciam o dia da noite, e contam com força e resistência sobre humana constante;
- Lost Girl utiliza explicitamente o conceito oriental de “Chi” para se referir àquilo que em As 4 Damas é chamado de Vitalidade, mas nesta última suas aplicações são muito mais amplas que a mera manutenção da vida, podendo ser convertida, pelas absórvitas mais poderosas, em eletricidade, as permitindo até mesmo disparar raios, e nos casos mais extremos, criar um campo elétrico defensivo em torno do corpo e viabilizar inclusive levitação;
- Por fim, embora em Lost Girl exista também a contrapartida dos Íncubos, ambos não parecem demonstrar grande preferência entre homens e mulheres no que se refere absorver o Chi, enquanto as súcubos e os íncubos em As 4 Damas são exclusivamente focados no sexo oposto humano, ao passo que as absórvitas, embora também possam sugar vitalidade de ambos os sexos, também manifestam uma facilidade maior para sugar energia de homens que de mulheres. Finalmente, é bom lembrar que existem também absórvitas homens, mas em proporção em geral inferior a 10%.
Apesar de uma certa precariedade, Lost Girl é uma raridade que merece ser observada, não só por tocar num tema tão pouco explorado. (Dentre as infindáveis criaturas que se vê no Buffyverso, não há súcubos.) Também por refletir uma manifestação clara do arquétipo Lilith, retratando uma personagem sexualmente ativa e expansiva, mas, como diz explicitamente a autora “...sem cair em estereótipos básicos ou exploração misógina (ou misândrica)...” e que não define, por si, sua personalidade. Bo tem relações hétero, homo, e sobretudo relações humanas não sexuais, de modo a, mais uma vez nas palavras da autora “...desbancar o pânico clichê gay de que pessoas bissexuais sexualizam a todos e são incapazes de uma amizade platônica.”
Evidentemente, o fato da protagonista ser uma súcubo é o que de fato viabiliza essa abordagem, em contraste com o que vemos no Buffyverse ou outras séries que, apesar de terem sido muito criticadas por conservadores, são frequentemente marcadas por um surpreendente moralismo subjacente.
Como também afirma o autor de As 4 Damas do Apocalipse, apelar a essa visão sobrenatural e mítica da sexualidade é uma ótima forma de abordar um tema tão sensível de modo diferenciado, sem incorrer em alguma forma de repressão sexual, nem numa sexualidade descontrolada.
3 de Julho de 2023
Talvez a maior força de um mito é quando este se confunde com a realidade ao ponto de ser indissociável de fatos históricos incontestáveis, e este é o caso da súcubo Meridiana, uma personagem que pode até mesmo possuir uma correspondência histórica concreta apesar de envolta na mais plena sobrenaturalidade.
O Papa Silvestre II (Gerbertus de Aurillac), cujo breve papado de 4 anos fez a transição entre o 1° e o 2° milênios, é uma personalidade histórica factual, que entre outras coisas se destaca por sua sabedoria e erudição, sendo pesquisador de diversos temas, inclusive profanos, mas como bem o disse o próprio Papa João Paulo II em 1999, buscava sempre a verdade, colocando a inteligência em prol da causa divina.
Foi Silvestre II que, inclusive, introduziu os algarismos Indo-arábicos na Europa, abrindo caminho para o desenvolvimento da matemática ocidental, sendo este apenas um dos tópicos pelo qual ele se interessava vindo do mundo árabe islâmico, na época, cientificamente bem mais desenvolvido que a Europa Cristã.
Mas grassa a lenda que um dos motivos, talvez o principal, da intelectualidade brilhante de Silvestre II se devesse a atuação de uma figura oculta feminina, a demônia Meridiana, que teria sido desde a juventude sua amante, confidente e mestra secreta, lhe ensinando ciências ocultas e agindo nas sombras para seu sucesso eclesiástico.
Tais alegações teriam partido inicialmente dos seus opositores, que denunciavam que a igreja estaria sob efeito de influência maléfica e bruxaria, e seriam registradas na obra De Nugis Curialum (Século XII), do clérigo inglês Gualterius Mappus (1130–1210).
Independente do quanto possamos confiar não só na veracidade dos fatos, mas sobretudo na sinceridade dos relatos, existe a inexorável realidade dos mitos e lendas, e Meridiana se tornou uma lenda infalivelmente associada ao mito das súcubos, incluindo e perpétua indefinição de ser uma entidade física ou espiritual.
Talvez mais devesse chamar atenção o seu nome, que literalmente significa "do meio-dia", algo estranho de ser associado a uma entidade demoníaca e sobretudo a uma lilitu, que se trata de criatura essencialmente noturna. No entanto, o termo também pode ser interpretado como um delimitador entre dois "mundos", como de fato o faz o "Meridiano de Greenwich", e dessa forma seria poético supor que Meridiana faria a intermediação entre os "hemisférios" cristão e muçulmano, o que explicaria a disposição de Silvestre II para conciliar o conhecimento das duas grandes religiões.
Ainda mais exótico que Meridiana seja não somente uma amante, mas uma companhia que foi fiel por uma vida inteira, entrando na vida do então Gelbertus para poupá-lo do sofrimento de uma desilusão amorosa na juventude, e que indiretamente, por meio de seu amado, combateu a ignorância e a degeneração da Igreja. Sob o papado de Silvestre II, a venda de indulgências jamais teria sido possível.
Tal lenda, diferente de muitas outras relacionadas, chega a ser compatível com concepção de As 4 Damas do Apocalipse, pois apesar de, no geral, a maioria das "sucúbias" apresentadas na obra se comporte de modo muito diferente, há uma diversidade que inclui demônias extremamente inteligentes e sensíveis, capazes de agir de maneiras sofisticadas e benevolentes, embora em geral sejam raras em comparação com suas contrapartes mais agressivas e irascíveis.
A ilustração é da artista Diane Özdamar, e embora eu não tenha encontrado relação autoral direta com a lenda de Meridiana, ela tem sido recorrentemente associada, como se pode ver neste interessante fandom que discorre sobre "súcubos ascendidas".
10 de Junho de 2021
Diz o rabino Ben Sirach que Lilith foi mais que uma criatura da noite da mitologia babilônica, que foi a primeira mulher de Adão, também criada da terra, que reivindicou ser sua igual, recusando-se à submissão sexual. Não atendida, pronunciou a palavra proibida, fugiu do Éden, e se tornou consorte de demônios.
Só depois seria criada Eva, extraída da carne do próprio Adão.
Sirach, cuja ironia parece flexibilizar temas tabus, diz também que três anjos foram enviados para resgatar Lilith: Senoy, Sansenoy e Semangelof. Falharam. Nomes jamais citados em qualquer outro texto da tradição judaica, quer seja Zohar, Talmud ou outras fontes de estudo da Cabala. Nem nos mesmos livros que, por sua vez, falam sobre Lilith, quem, por sua vez, recebeu como punição adicional não ser citada em livro algum da Bíblia canônica, quer seja o antigo Testamento Judaico ou no Novo Testamento Cristão, sendo condenada ao esquecimento popular.
Mas outros textos polêmicos falam de 4 Anjos da Prostituição, ou das 4 Consortes de Samael. O Anjo Caído. Entre essas quatro entidades femininas está Lilith, uma das rainhas do Inferno, uma das quatro demônias mais poderosas do Qliphoth, a simbólica "Árvore da Morte" cabalística, antítese da Sephirot.
Apesar de Lilith jamais ter sido um anjo, por ter saído do Éden antes da expulsão, não sofreu os efeitos da punição ao pecado original, permanecendo como a última das divindades: imortal, capaz de falar a língua divina, detentora de habilidades que os filhos de Adão e Eva jamais teriam.
A palavra 'Qliphoth', literalmente traduzida, remete exatamente a essa mulher criada de uma terra impura, desprezada, indigna de ser citada, e que alimenta a raiz da Árvore da Morte. Segundo cabalistas, a serpente no Éden não era Lúcifer, cujo nome hebraico é Samael, e sim Lilith, sua consorte, que com seu feito introduziu a morte em toda a criação.
Se Adão e Eva foram o casal humano mortalizado pela expulsão do Éden, Samael e Lilith são o casal divino, ainda que amaldiçoado, demoníaco, ou demonizado, imortalizado no inconsciente da humanidade, proscrito da narrativa Bíblica, ele por ter seu verdadeiro nome, e natureza, ocultados, ela, ainda mais oculta, por ter a totalidade de sua existência omitida.
Mas as maiores forças do universo não são visíveis, os maiores poderes do mundo não se dão a conhecer. Protegida nas sombras, a maior força de Lilith está justamente em sua capacidade de agir sem ser notada, manipular sem ser manipulada, conduzindo o destino dos que a ignoram, vigiando a todos como a Lua Nova, que em plena luz do dia, percorre os céus, impercebida, mas percebendo com clareza toda a superfície da Terra.
9 de Junho de 2021
Naamaah, que também pode ser grafada Naamah, Na'amah, Namaah ou mesmo Manaah, forma, ao lado de Eisheth Zenunim, o par misterioso das Rainhas do Inferno. Diferente de Lilith e Agrat bat Mahalat, das quais há muita informação, embora muitas controvérsias e contradições.
Confundida com uma personagem da Gênese que levava seu nome, e considerada, ao lado de Lilith, uma das que visitavam Adão para corrompê-lo, tem sua melhor fonte de referências no Zohar - O Livro da Luz, que por meio de gematria, cabala, numerologia e outras técnicas do misticismo hebraico, desvenda segredos da Bíblia Judaica.
Naamaah é descrita como "a primeira a enganar e confundir os anjos", e apresentada como "A Mãe dos Demônios." Outras referências pagãs a intitulam "A Mãe de Todas as Bruxas", relacionando-a com outros mitos tais como Baba-Yaga ou Hécate.
Todavia, mais relevante que a referência a bruxas e demônios. Provavelmente o conceito de 'mãe' seja o caso mais emblemático de similaridade inter linguística conhecido, pois na quase totalidade dos idiomas humanos, apesar de sua vasta diferenciação, coincide a presença do fonemas 'm', ocasionalmente 'n', em geral associados às vogais 'a' ou 'e'. Com raras exceções, temos 'ma' como um som quase universal significando mãe, visto ser uma das primeiras coisas que os bebês conseguem pronunciar.
Não só isso, porém, pode ser derivado das pouquíssimas informações que as tradições herméticas e cabalísticas oferecem. Se, com Lilith, Naamaah se relacionava com Adão, e sendo, pelo mito, Lilith tão antiga quanto o próprio Adão, e não havendo qualquer referência a respeito de quando Naamaah teria sido gerada, então não é descabido pressupor que seja tão ou mais antiga que Lilith, visto ser um demônio, e portanto remontar ao mito da queda dos anjos, antes da criação do mundo.
Howard Schwartz, escreve em sua obra A Árvore das Almas: "Outros dizem que quando os dois anjos, Shemhazai e Azazel, desceram à terra, ainda eram inocentes. Mas foram corrompidos pelas demônias Naamaah e Lilith."
Sua obra atesta que é Naamaah que estabelece o padrão comportamental básico das súcubos, nas palavras do Rabino Simeão: "...é aquela que vaga pelo mundo à noite, roubando a virilidade dos homens, e onde quer que sejam encontrados dormindo sós em uma casa, ela adquire poder sobre eles, especialmente em tempos de fraqueza e doença, enquanto a lua mingua."
Em meio a informações conflitantes, talvez o mais certo derive de outras citações de seu nome, incluindo versões cristãs da Gênese, que não tratam desta demônia primordial, mas de mulheres comuns batizadas com seu nome. E este nome, isto é inequívoco, significa 'agradável', 'gentil', 'carinhosa' ou similares. Características, além da beleza, sempre destacadas nas humanas assim batizadas.
E nesse sentido primordial, a que mais tais termos podem se referir além da mais arquetípica feminilidade? O que mais seria a mais arquetípica feminilidade que a maternidade?
8 de Junho de 2021
Eisheth Zenunim, também chamada Isheth Zenanim, é a mais misteriosa das quatro Rainhas do Inferno, pois dentre Agrat bat Mahalat, Naamaah e Lilith, possui menor número de referências nas tradições da Cabala, e nenhuma descrição, embora, curiosamente, seja a que possui o nome com a pronúncia mais bem definida.
O Zohar, o cabalístico Livro do Esplendor, escrito há 1.800 anos, muito pouco revela sobre ela, mas a tradição mitológica judaica a descreve como a "devoradora dos condenados", consumindo-lhes as almas. Vale lembrar que tal como na maioria das tradições ancestrais, na 'kabalah' existe ambiguidade no conceito de 'alma', ou 'espírito', hora o termo hebraico 'ruach' assumindo o sentido psíquico, onde estaria a consciência, hora o sentido de 'vitalidade', a força que anima os corpos. Em verdade, em geral ambos são vistos como dois aspectos de uma mesma substância.
Eisheth está associada ao Sathariel, o aspecto do Qliphoth, a Árvore da Morte, que se opõe ao Binah, o conceito feminino do entendimento, clareza, intuição, na Sephirot, a Árvore da Vida. O Sathariel é a "ocultação do divino", o oposto da geração da vida.
Também está associado ao "olho esquerdo" da cabeça divina, bem como o lado esquerdo do coração, ou do cérebro, e portanto, a dimensão mais racional, sendo justo a racionalização o que mais oculta o divino. Aparentemente, a mais intelectual das consortes de Samael. Por outro lado, diz-se que seu nome se traduz por "mulher da casa de prostituição", num sentido bem mais profundo, porém, do que o usual, associando-se a uma forma de anti vida, da sensualidade não usada para procriar, mas para disseminar luxúria, doenças, morte.
Com tamanha confusão é difícil saber a real natureza demoníaca de Eisheth Zenunim. Mas ao menos uma coisa fica clara. Todos os sentidos e interpretações levam a um tipo de consumo de vitalidade.
Eisheth Zenunim é a devoradora da vida.
7 de Junho de 2021
No livro da Gênese, o nome Mahalat, Mahlat ou Mahlath, por vezes Maalet, Maalate, ou similares, é apenas o de uma mulher comum, se é que se pode dizer isso dos primeiros humanos cuja origem é até mesmo suspeita de descender de anjos. Agrat, ou variações como Igrat ou mesmo Igrite, também é um nome próprio. Agrat bat Mahalat significa, literalmente, "Agrat filha de Mahalat".
Já nas tradições rabínicas, muito mais herméticas, há informações diferentes. Mahalat pode significar dançarina, e Agrat bat Mahalat o demônio que dança nos telhados, mas também a rainha dos demônios, cuja carruagem lidera 18 miríades (dezenas de milhares) de mensageiros ("anjos") da destruição. Ou seja, um exército de 180 mil criaturas aladas. Também é considerada a mestra, ou amante, da feitiçaria, que comunica segredos proibidos aos praticantes da arte oculta.
O Qliphoth, a "Árvore da Morte" na tradição cabalística, a depender da interpretação, concebe Agrat bat Mahalat e as demais "anjos da prostituição" Eisheth Zenunim, Naamaah e Lilith, como forças vitais invertidas, que associadas a Samael, o "Veneno de Deus", geram toda uma hierarquia de entidades maléficas.
Mas apesar de quase uma dezena de fontes tradicionais hebraicas, assírias ou babilônicas se referir a alguma das Consortes de Samael, ainda assim as informações existentes são muito escassas, sujeitas a inúmeras interpretações e mesmo frequentemente contraditórias. A perpétua dúvida sobre a natureza espiritual ou física, ou ambas, das cosmovisões mesopotâmicas, anteriores até mesmo à questão a respeito do universo ser monista ou dualista, praticamente impede qualquer conclusão segura sobre que possíveis realidades estão ocultas sobre os véus do desconhecimento.
Uma coisa, porém, é certa. Tratam-se de forças muito superiores ao mero poder humano. E mesmo sendo forças femininas, originalmente geradoras da vida, quando invertidas, terminam servindo à morte, pois nada é mais mortífero que a reprodução desenfreada da vida.
Submetidas a alguma ordem hierárquica, mesmo que demoníaca, tais forças podem ser contidas, mas à solta, com poderes além da capacidade humana, as Quatro Anjos do Prazer se tornam as Quatro Demônias da Destruição, arautos da morte, Cavaleiras, ou Damas, do Apocalipse.
Conquista, Guerra, Fome e Morte.
Agrat bat Mahalat é a senhora dos exércitos.
4 de Junho de 2021
Os 4 Cavaleiros do Apocalipse talvez sejam os ícones temíveis mais famosos da Bíblia, descritos principalmente no Capítulo 6 do Livro das Revelações.
Mas apesar de estarem consagrados no imaginário popular como Peste, Guerra, Fome e Morte, diferente do que muitos pensam, somente o segundo e quarto cavaleiros são assim evidentes. Guerra por ter recebido uma espada, ter um cavalo da cor do sangue, e ser dito que tem o poder de tirar a paz entre os homens (Ap 6:4). E Morte por ser assim literalmente nomeado (Ap 6:8).
O terceiro cavaleiro, do cavalo preto, é normalmente identificado com a Fome, mas isto não é tão preciso quanto nos casos anteriores. Trazendo uma balança na mão, o cavaleiro faz uma declaração basicamente "comercial", estabelecendo preços abusivos para trigo e cevada, mas dizendo para não "danificar" o azeite e o vinho (Ap 6:6).
Há muitas interpretações possíveis para essa passagem, que vão desde o abuso econômico contra os mais pobres, consumidores de trigo e cevada, enquanto os luxos dos ricos, azeite e vinho, são intocados, até alegorias sobre o julgamento das almas onde azeite e vinho são vistos como unção e sangue de cristo. A interpretação como Fome é compreensível, até porque no versículo 8 a palavra é literalmente usada sugerindo que o cavaleiro possa ser assim nomeado.
Mas isso nem de longe é tão claro quanto nos casos da Guerra e da Morte. O terceiro cavaleiro pode ser entendido como exploração, crise econômica, e há até quem, hoje, o identifique com o capitalismo, ao passo que outros interpretam o segundo cavaleiro como comunismo, em virtude do cavalo vermelho. E por vezes, até fazendo analogia do azeite, que também era usado como combustível no passado, com o petróleo.
Ainda mais incerta é a natureza do primeiro cavaleiro, do cavalo branco. Portando um arco e ostentando uma coroa, ele costumava ser chamado de Conquista. Tanto o filme Os Quatro Cavaleiros do Apocalipse de 1921 quanto o de 1962 assim o nomeiam. Somente no versículo 8, algumas traduções da bíblia acrescentam o termo 'peste' antes de "feras da terra", por meio de interpretações teológicas controversas. Na realidade, até antes do século XVIII, o primeiro cavaleiro, saído do primeiro dos sete selos aberto pelo cordeiro, era predominantemente interpretado como o próprio Cristo! Considerando que saiu "vitorioso e para vencer", além da simbologia do cavalo branco e da coroa.
Na verdade o termo 'peste', 'pestilência' ou 'praga', sequer aparece em traduções de alta reputação como a King James, visto que o termo grego que costuma ser assim traduzido é 'thanato', que literalmente é 'morte'.
Na visão atual dos 4 Cavaleiros, que se consolidou apenas no último século principalmente na cultura popular, é difícil saber porque exatamente a 'peste' foi sacramentada como a interpretação "definitiva" do primeiro selo. Neil Gaiman e Terry Pratchett não foram totalmente inconsequentes quando consideraram, em seu livro Good Omens, de 2004 (no Brasil lançado como "Belas Maldições" embora literalmente seria "Bons Pressários"), que o primeiro cavaleiro era na verdade 'poluição', visto haver real indefinição no texto bíblico.
E em As 4 Damas do Apocalipse, é sugerido que na verdade a 'peste' se confunde não só com as 'feras', visto que doenças são causadas por microorganismos (pequeninas feras), mas até mesmo com a 'fome', visto que um dos principais motivos de fome no mundo são pestes que destroem plantações e rebanhos, e que a fome torna o corpo mais vulnerável à toda sorte de infecções, bem como doenças também prejudicam a alimentação.
Até mesmo nossa crise sanitária global atual permite essa correlação da peste com a fome.
Por fim, As 4 Damas do Apocalipse associa os 4 Cavaleiros com as bem menos conhecidas figuras mitológicas das 4 Concubinas de Samael, nome hebraico do Anjo Caído.