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OS CRONONAUTAS
A Versão EXERIANA de
"A Máquina do Tempo" de H.G.Wells
***
Primeira Parte
A MÁQUINA DO TEMPO
CAPÍTULO I
Era uma sala branca. Janelas grandes e arejadas com cortinas claras esvoaçando suavemente.
Aquela agradável manhã se configurava poeticamente perfeita para um momento inesquecível, e
ainda que isso estivesse previsto, a maior parte dos poucos ali presentes ainda não estava
convencido da importância que o Dr. George alegava estar carregado o momento.
Anos de espera e investimento talvez ali se justificassem. Assim esperava Herbert, o principal
financista do projeto, que de sua fortuna pessoal, maior parte herdada, emprestava tudo o que
fosse possível para manter tão ousada pesquisa científica. Herbert tentava se convencer que
George merecia todo aquele crédito, e não que o fazia apenas por sua longa amizade pessoal.
O outro presente, o jovem Wells, era o terceiro amigo. Ele Herbert e George haviam se conhecido
antes da maioridade, e sempre se mantiveram em contato. Wells era escritor e jornalista, com
bom emprego, em parte graças a seu amigo Herbert, mas o mais importante, era o grande sonhador
do grupo, a mente da qual saíam as mais ousadas elucubrações fantásticas que divertiam os amigos,
ainda que, como cientista, George vivesse a colocar freios na imaginação do rapaz, se ele um
dia quisesse se tornar um bom escritor de Ficção Científica.
Os demais membros daquela reunião eram cientistas e consultores das mais conceituadas
universidades, laboratórios e instituições de pesquisa particulares e governamentais. Apesar de
desligado dos projetos oficiais controlados pelo governo, e oficialmente expulso do projeto
norte-americano mais promissor da história da Física, George ainda era respeitado pelo seu
indisfarçável brilhantismo
- Esperando que todos tenham lido a bibliografia básica que recomendei... - Iniciou George ante
olhares que pareciam denunciar não tê-lo feito. - ...Podemos começar. Tenho o prazer de declarar
que está pronto!
- Pronto o quê? - Perguntou um dos consultores. - A pesquisa de transição de partículas ou...
- Isso e muito mais! - Interrompeu George. - Hoje vocês entenderão porque eu sempre disse que
não perderam por esperar. Wells!
O jornalista tomou o controle remoto e acionou o aparelho de TV com videocassete embutido, que
poucos haviam notado no canto da sala. Estava bem posicionado em um local onde a claridade
não o atingia diretamente, garantindo uma boa imagem.
" - Como sabemos os americanos estão muito adiantados no teletransporte de partículas.
Conseguiram fazer na semana passada um átomo de hidrogênio ser transportado instantaneamente
a uma distância de 20m, e sabem muito bem que isso implica também em algo similar a um salto
quântico, eliminando o a atraso que costumavam ter nas experiências anteriores."
Na verdade não era Herbert falando desta vez, ou melhor, era, mas na gravação em vídeo.
" - O motivo mais forte de minha indisposição com os dirigentes do projeto é que eu insistia em
não utilizar os método que acabaram por resultar nessa transição instantânea, a correção do
atraso, cuja razão eles nunca foram capazes de entender. Estudaram muitas outras hipóteses e
colocaram para segundo plano a hipótese a qual eu terminei por confirmar em meu laboratório."
Enquanto a narração seguia, imagens simples mas eficientes e bonitas, produzidas em computação
gráfica por Wells, ajudavam a esclarecer as informações.
" - O atraso, nada mais é do que um breve salto para o futuro. Ao induzir a partícula à hiper
vibração que resulta no salto, nós a colocamos por um breve instante fora de nosso Espaço-Tempo
normal. Ela se adianta segundos ou frações de segundo, até que em nosso passar do tempo normal
nós a alcancemos. Essa demora tem sido vista como um tempo decorrido para partícula
sair do espaço normal, se converter em formas sutis de energia e finalmente se reconverter para
voltar ao espaço. Mas isso é um erro! A partícula não está demorando para se deslocar, ela está
na verdade se deslocando rápido demais!"
A apresentação se seguiu com diversas outras explicações e gráficos, num vídeo curto mas intenso,
que terminou por não ser bem absorvido pela maioria dos presentes.
- E o senhor pretende provar isso Dr. George? - Perguntou uma das cientistas consultadas.
- Realmente não é fácil sustentar essa teoria, pois não temos como demonstrar tal salto no tempo sem instrumentos que
meçam com exatidão o tempo decorrido para a partícula transportada e compará-la com o tempo
decorrido em nosso espaço-tempo. O transporte de átomos degradáveis super pesados que
pudessem auxiliar nesse cálculo nunca foi bem sucedido. Foi por isso que propus meu projeto.
- Que foi veementemente recusado por todas as instituições norte-americanas, e a maioria das
daqui também. - Comentou um consultor.
- Claro. - Respondeu outro. - A verba necessária é alta demais para um risco tão grande. É um
projeto por demais fantástico. Por Deus... Viajar no Tempo?!
- Felizmente... - Interpelou George. - Os recursos necessários nem sempre tem que vir diretamente
das contas do governo. - Concluiu apontando para Herbert, que deu um sorriso enigmático.
- E afinal... - Perguntou outro cientista. - O que tem para nós?
- Construí o dispositivo! - Respondeu George meio bruscamente, orientando Wells a apertar o
PLAY para continuar a apresentação.
" - Baseado na teoria de que a partícula transportada tenderia a arrastar consigo qualquer
matéria que lhe fosse adjacente e suficientemente leve, logo percebi que bastaria aumentar a
energia do impulso para transportar não uma partícula, não um simples átomo, mas moléculas,
cadeias moleculares inteiras, substâncias, por fim, macro objetos, para o futuro."
" - De acordo com a energia adicionada, cria-se um raio global de efeito, onde tudo o que estiver
dentro é transportado no tempo. Porém nos aparelhos dos institutos onde trabalhei sempre
ocorria do raio de ação levar toda a matéria no interior da câmara, de modo que ela simplesmente
sumia e perdia-se a possibilidade de medi-la com precisão. É exatamente isso que sugeri evitar,
ampliando ainda mais o raio de ação. Porém, a medida que o raio atingia a matéria a sua volta,
a própria aparelhagem da câmara, imediatamente acabava por ter seu efeito anulado, pois não
conseguia arrancar a matéria de sua demais extensão. Ou o raio envolve toda a continuiade do
objeto, ou é inibido pelo excesso de matéria a transportar."
" - Por isso, não basta construir imensos indutores de salto, é preciso construir um dispositivo
pequeno, o menor possível, capaz de flutuar, desconectado de qualquer outra continuidade de
matéria densa. Esse aparelho será capaz então de, com a energia necessária, ser totalmente
arrastado para o futuro, literalmente sumindo por um instante, e surgindo novamente. Com isso
poderíamos medir o tempo decorrido para ele, e para nós, e confirmar a ocorrência de uma transição
no tempo, e não de uma mera suspensão".
- E você pode confirmar isso? - Perguntou uma cientista, após longa pausa do término do vídeo.
George fez uma pausa dramática, e finalmente disse. - Sigam-me.
CAPÍTULO II
Chegaram no laboratório subterrâneo. Pequeno, mas bem equipado, e que funcionava numa
chácara de alguns kms2 onde o próprio George morava, e da
qual praticamente não saia há mais de um ano.
Auxiliares de laboratório abriram a cortina que dava para um sala escura, onde um estranho objeto
estava em cima de uma mesa. Era basicamente um cilindro inclinado, com uns 30cms de diâmetro e
90 de altura, circundado por um estrutura em anel. Abaixo dela, um disco espesso parecendo uma
base, e acima um pequeno motor com uma grande hélice, que apesar de tudo não conseguia lhe
dar a impressão de ser um helicóptero. E tudo isso sustentado por um delicado tripé, de pernas tão
finas que não pareciam ser capazes de aguentá-lo, sobre uma mesa de metal.
- Então... Esse é o aparelho? - Perguntou Herbert.
- Exatamente! - Respondeu George. - Prontos para a demonstração?
Poucos conseguiriam descrever a emoção de ver aquele dispostivo aparentemente pesado flutuar
lentamente, começar a piscar, de início tão rápido que não se podia notar, mas cada vez mais
devagar, até aparentemente sumir totalmente por alguns segundos, repetindo então o processo
ao inverso, piscando cada vez mais rápido até que por um momento parecia transparente e por
fim se tornar totalmente opaco ao mesmo tempo que pousava.
- Senhoras e senhores. Acabam de presenciar uma Viagem no Tempo. Basicamente, para exatos 30s
no futuro, que foram percorridas pela máquina em exatamente metade deste tempo. Ou seja, para
nós foram 30, para ela, 15. Em Média.
A nenhum dos presentes ocorria ter sido vítima de um embuste. Ninguém punha em chegue a
seriedade do Dr. George, que aos 21 anos se formara em física por uma das melhores universidades
do país, e se doutorara aos 26 na mais prestigiada universidade norte-americana. Mas o fato era por
demais perturbador. Era sabido que George estava de corpo e alma envolvido num projeto relativo
a viagem no tempo, mas ninguém levava a sério a possibilidade de um feito daquela natureza.
Pensavam no máximo em transporte de partículas, e acreditavam que apesar de perseguir aquele
delírio, ele conseguiria obter várias observações colaterais que poderiam ser úteis ao avanço da
ciência. Portanto, a preocupação no momento era de que tudo não passasse de um engano. Um erro
de observação acobertado pelo entusiasmo do jovem Dr.
- Você tem certeza disso? - Era a pergunta resultante de uma série de questões lançadas
simultaneamente, mas o Dr. George decidiu dar atenção a uma das perguntas práticas.
- Os motores a hélice sem dúvida seriam insuficientes para levantar um objeto de quase 600kg,
mas a medida que o campo de avanço temporal atinge o objeto ele se desliga parcialmente da
força gravitacional do planeta, de modo que seu peso se reduz drasticamente, e dessa forma
as hélices conseguem levantá-lo. O tripé é constituído de um material o mais leve possível, de
modo a que a massa ofereça pouca resistência ao campo de avanço temporal, o suficiente para que
a redução na atração da gravidade atue a ponto de permitir a elevação da aparelho. Ao ficar
totalmente suspenso, o campo passa agir com maior intensidade, pois o ar oferece resistência
desprezível ao avanço no tempo. Na verdade as moléculas de ar passam de dentro para fora do
campo de avanço, e também de fora para dentro, porém mais de dentro para fora porque a molécula
de ar lançada de dentro do campo emerge no tempo normal com altíssima velocidade e força,
favorecendo ainda mais a impulsão.
- Tudo bem Dr... - Iniciou um dos financistas do governo. - Ainda assim não estamos completamente
convencidos de que de fato houve uma viagem no tempo, ou uma mera fuga de nossa
percepção normal como tem declararam os críticos de seu projeto. Essa tecnologia já seria
extremamente útil, poderíamos criar máquinas capazes de se esconder de modo extremamente
eficiente, ou se mover com grande destreza. Com certeza, o senhor já conseguiu provar que valeu
o investimento. Só me resta a pergunta: Como pode mostrar que há de fato um salto no tempo e não
um mero mal funcionamento nos relógios do objeto?
- Ele tem razão. - Confirmou uma outra cientista. - Por mais precisos que sejam os relógios e
os demais equipamentos, ainda podemos considerar que esse aparente avanço no tempo seja uma
mera distorção de medida.
- Entendo. - Respondeu George. - Mas já fiz vários testes, não tenho a menor dúvida, e estou lhes
passando meus resultados. Já transportei inclusive cobaias. Agora só me resta um teste com um
tripulante humano.
- Um Crononauta?! - Exclamou Wells.
- Sim. Para isso precisarei de mais apoio para uma máquina maior levar um piloto numa viagem
para o futuro, e de volta ao presente.
Houve uma estupefação geral.
- Como é?!
- Está falando que é possível viajar para o passado?!
- Apenas para o passado relativo ao avanço da máquina. Quero dizer, a Máquina do Tempo, se é que
já me permitem falar assim, só pode viajar para o futuro, e de volta ao presente imediatamente
posterior ao de onde ela saiu. - Respondeu o Dr. George, enquanto pegava um pincel para riscar
num quadro branco.
- Quer dizer que as especulações sobre o retorno das partículas ao tempo anterior tem fundamento?
- Perguntou um dos cientistas.
- Sim. - Respondeu o Dr. - Quando enviamos uma partícula para o futuro, causamos um tipo de
lapso existencial onde ela deveria ter existido. Essa partícula se torna então sensível a uma
indução inversa, que imediatamente a joga de volta ao seu ponto de partida. Se adicionarmos essa
mesma indução a uma partícula comum, que nunca tenha viajado no tempo, nada acontecerá, mas
uma partícula viajante tem no fundo, uma tendência a voltar ao seu tempo original.
- O mesmo ocorre naturalmente com toda a matéria que viajar no tempo? - Completou um dos
cientistas.
- Exatamente. Vejam. - George começou a riscar no quadro. - Vamos supor que a Máquina do Tempo
saia de 20 de Janeiro de 2009 às exatas 14:00 horas, e chegue, digamos,
dez anos no futuro. De lá, ela só poderá voltar para as 14:01. Na verdade voltará para bem mais,
diria uma 14:10, devido ao processo de aceleração temporal ser lento. E da mesma forma, ela não
poderá mais viajar para um tempo futuro anterior a 10 anos. Ele estabele então uma ponte
entre o tempo presente e o tempo 10 anos no futuro, ambos correndo paralelamente. Daqui, do
presente, só poderá voltar a 10 anos e alguns minutos no futuro, e nem poderia ser de outra
forma.
- Por quê?
- Teorizei dois motivos. Primeiro porque, creio, a matéria só pode ocupar um local
"temporalmente" vazio. Isto é, um tempo onde ela originalmente não exista no mesmo espaço, ou se
puder. Bem... As consequências de uma matéria ocupar o mesmo tempo-espaço duas vezes poderia
ser desastroso a nível de partículas.
- Segundo porque como já disse há uma atração entre os pólos temporais onde a matéria esteve.
Se saltou dez anos para o futuro, ela aparentemente não tem como tomar outro caminho. Ainda não
sei exatamente porque, mas funcionou assim em todas as micro experiências que fiz, isto é,
experiências a nível de partículas.
- E numa viagem numa máquina maior... - Iniciou um dos cientistas. - Com um piloto, qual seria
o espaço de tempo seguro para o salto.
- Fiz o cálculo me baseando no tempo que cada material leva para estar completamente alterado
a nível subatômico, quer dizer, porque a matéria não é de fato constante e inalterada ao longo
do tempo. Ela muda, suas sub partículas vão assumindo novas configurações e se renovando. Tal
como as células de um organismo vivo mudam completamente ao longo de anos. Com uma
mudança significativa, diminui o risco da matéria se deparar com uma cópia dela mesma a ponto de
gerar algum tipo de atração quântica por afinidade, e um possível aniquilamento.
- Isso tudo não passa de uma série de hipóteses. Contestou uma cientista.
- Sem dúvida. Mas não quero descartá-la. Poderia ser catastrófico. Com os materiais usados na
Máquina do Tempo cheguei a um número aproximado de 846 anos, que preferi arredondar para mil.
Um número também que me dá uma maior segurança de evitar coincidências mais acidentais.
Duvido muito que daqui a mil anos a Máquina estaria neste mesmo local, neste mesmo laboratório.
- O que o senhor quer dizer... - Principiou um financista governamental. - Que precisa de mais
verba para construir uma Máquina do Tempo e viajar mil anos para o futuro?
- Não. Só preciso de verba para um estoque de energia. A Máquina já está construída.
CAPÍTULO III
Não foi nada fácil para o Dr. George conseguir convencer o governo a lhe liberar uma licença para
nada menos que um pequeno reator nuclear. Antevendo o incrível potencial da tecnologia ali
desenvolvida, os financistas governamentais não pouparam esforços, mas não deixaram de
enfrentar grandes obstáculos, e agora olheiros de todo o mundo estavam a vigiar a experiência do
Dr. George, a sorte, era que a grande maioria deles não levava o objetivo da pesquisa a sério.
De qualquer modo, no dia 15 de Fevereiro de 2009, o próprio Dr. George estava disposto a realizar
a épica façanha. A Máquina do Tempo era uma máquina estranha. Um anel vertical de metal dourado
envolvia frontalmente uma cabine, onde se dispunham todos os controles. Logo atrás dela o reator
nuclear, movido a plutônio, que forneceria a tremenda energia não para a viagem de ida, pois esta
podia ser retirada da própria rede do laboratório, mas sim para a viagem de volta, pois nada
garantia que poderia-se encontrar fontes de energia um milênio no futuro. Logo abaixo do reator
ficava o dispositivo de indução atômica de salto temporal, onde doses intensas de energia
obrigavam átomos pesados a saltarem para o futuro, gerando um campo esférico amplo que
arrastava a matéria com ele. Em cima duas hélices, que girariam em sentidos contrários,
protegidas por uma grade, o mesmo ocorria em baixo, embora fosse mais difícil distinguir.
A Máquina repousava num pedestal, sobre um fino tripé de material altamente condutor, que era
usado para receber a energia elétrica das fontes do laboratório para a câmara de indução temporal,
tal como seu protótipo menor, que recebia energia através da mesa de metal. Uma luz vermelha em
torno do pedestal se acendia quando a energia estivesse prestes a circular no imenso circuito,
prevenindo acidentes.
Muito se insistiu que o Dr. George não deveria se arriscar em tão ousado empreendimento. Mas
somente ele parecia ser capaz de entender o funcionamento da máquina a ponto de contornar
qualquer problema que porventura surgisse na viagem. Não parecia ser possível arranjar mais
alguém suficientemente ousado, qualificado e que acreditasse na seriedade do projeto.
Os amigos Wells e Herbert estavam mais próximos da máquina, olhando para George, que acenava
alegremente de dentro da cabine, tentando disfarçar o nervosismo que era maior não pela
expectativa de viajar ao desconhecido, mas pela possibilidade de algo sair errado e a viagem não
ocorrer. Eles seriam plenamente capazes de acompanhar o companheiro nesta louca aventura, e
encabeçavam a lista de futuros viajantes caso a experiência fosse um sucesso.
Pouco mais de duas dezenas de pessoas se concentravam no local, entre cientistas, consultores,
agentes do governo e de universidades, e os poucos mas competentes técnicos e cientistas
auxiliares de George. Herbert, sem quem o acontecimento do dia seria impossível, guardava fé
quase religiosa em seu amigo, Wells não menos, e já pensava em como escreveria sobre aquele
momento épico quando tudo fosse revelado ao mundo. O que esperava fazer muito em breve.
Não deveria demorar muito. Esperava-se que a Máquina do Tempo retornasse segundos depois de
partir, para os que ficavam, por mais que o tempo para George passasse, mesmo porque estava
programada para voltar automaticamente.
O momento chegou. O Dr. George acionou os mecanismos, os imensos pares de hélices começaram a girar,
movidas por um motor a explosão. O intenso vento invadiu a sala obrigando todos a se protegerem.
A luz vermelha de alerta da plataforma se acendeu e então o indutor temporal foi ativado quando a
intensa corrente elétrica percorreu a plataforma.
Lentamente a nave flutuou, leve como um balão, já apresentando breves pisques, flashes que
denunciavam micro saltos para o futuro, de modo que a nave existia um segundo a cada 6, e cada
vez menos, até por fim, desaparecer em definitivo.
Não esperaram sequer um minuto quando de repente a nave do tempo irrompeu novamente na sala,
se deslocando bruscamente do ponto onde sobrevoava a plataforma e se chocando contra o teto, e
em seguida contra a parede, perdendo altura e finalmente caindo inclinada sobre a plataforma,
por fim, tombando abaixo.
O susto e a queda não impediram que todos pudessem perceber que a nave não retornara intacta,
tinha reparos, arranhões e mudanças diversificadas. Todos se aproximaram e viram um homem se
esforçar para abrir a cabine e sair.
Era George, quase irreconhecível. Os cabelos mais compridos e mal cortados, a barba mal feita,
roupas rústicas, totalmente diferentes da que vestia, parecendo feitas de couro e com ornamentos
de madeira, ossos e metal grosseiro. Possuia vários arranhões e cicatrizes leves. Alguns dos
quais ainda inflamados.
Todos estavam pasmos diante de alguém cuja aparência não deixava ninguém duvidar ser de fato o
primeiro Crononauta da história. Ele saiu da máquina, meio atordoado, e foi acudido pelos
amigos Wells e Herbert, outros assistentes se aproximaram. Uma breve e dificultosa troca de
palavras levou os amigos a anunciarem que ele precisava descansar e que não tinha condições de
prestar qualquer depoimento agora. E assim George foi levado para seu quarto, após várias
discussões, um a um os espectadores foram se retirando, até por fim, ao cair da noite, o local
estar habitado apenas pelos técnicos que tentavam reabilitar a máquina, apesar das instruções
confusas de George para não fazerem qualquer alteração drástica.
Exausto, George adormeceu, e seus amigos o deixaram repousar após ele ser submetido a vários
exames médicos. Herbert e Wells não sairiam dali até o dia seguinte, mas voltaram até o laboratório
ainda não totalmente recuperados do choque.
Mas o choque maior ainda estava por vir, quando um dos técnicos veio lhes mostrar alguns dados
da máquina, em especial o registro da viagem.
Ela não avançara até mil anos no futuro, ou marcaria num dos mostradores a data de 3009.
Ao invés disso, ela indicava o ano de 82701!
***
Segunda Parte
800 SÉCULOS EM 43 HORAS
CAPÍTULO IV
No dia seguinte, George acordou sobressaltado, olhou seu quarto como se de repente não o
reconhecesse, até que se acalmou. Os amigos logo vieram vê-lo. Ele lhes sorriu mas continuou em
silêncio. Se levantou, caminhou como que reconhecendo coisas que há muito não
via. Usou longamente o banheiro e voltou barbeado e banhado. Finalmente desceu para comer
a refeição, devorando alguns itens, e deixando intocado outros que antes ele costumava consumir
com avidez.
Finalmente quebrou o gelo.
- Me desculpem meus amigos...
Wells e Herbert ainda não estavam preparados para ouvi-lo falar, apesar de ansiosos. E prestaram
muita atenção, não tencionando fazer perguntas, e nem sendo necessário, pois o próprio George
deu início a um monólogo calmo, detalhista, com todas as características da lucidez, mas de
peculiaridades tão fantásticas que pareciam insanas.
Sua voz estava ligeiramente diferente. Tinha até um certo estranho sotaque.
Essa, é a sua história.
Há muito tempo ensaiei este discurso. Na verdade até o gravei várias vezes, mas nenhuma gravação
me parece satisfatória. E embora você possam conferir boa parte disso nos registros da máquina
do tempo, creio que preferirão ouvi-lo de mim, mesmo porque eu tenho uma enorme necessidade de
contar essa história.
Naquele dia... Que para vocês foi apenas ontem, mas para mim, já faz um ano...
Naquele dia, assim que acionei a máquina, comecei minha viagem para o futuro. Por um breve
instante vi outra máquina surgir e cair no chão, depois se levantar e voltar à plataforma, tudo
muito rápido, pois em pouco segundos eu já avançava para o futuro a razão de um 55 segundos em 1,
e indo cada vez mais rápido.
Via movimentos no laboratório como borrões difusos, e pelas janelas notava o céu clarear e
amanhecer cada vez mais rápido, até tudo assumir um tom constante. O laboratório ficou
ligeiramente mais escuro, acho que foi abandonado e sua iluminação interna nunca mais foi
acesa, até que por volta de 2080 ele desapareceu, e ao meu redor surgiu imediatamente outra
construção.
Fiz a nave subir, quase sem gasto de energia, pois naquela velocidade de avanço temporal a
gravidade era quase imperceptível, tanto que após elevar a nave e atravessar as paredes do
prédio que me cercava, pude desligar as hélices, e me deixar flutuar livremente.
Acelerando mais, a Máquina do Tempo logo atingiu sua velocidade máxima, de meio ano por
segundo. E a cidade que eu via já era irreconhecível. Prédios imensos se alastravam por toda a
parte até sumir de vista. De repente, a cerca de 2400, a aparência mudou bruscamente. Parecia que
toda a cidade fora demolida e construída uma nova, com prédios muito maiores.
Subi a máquina mais ainda, e já devia estar a uns 500 metros do solo quando prédios ainda mais
altos surgiram ao meu lado. Por uns momentos, a cidade ficou vivamente iluminada, e depois
escureceu.
Após quase meia hora de viagem para o futuro, já estava chegando no limite de segurança de
mil anos, e a nave começou a desacelerar gradualmente. De repente a cidade pareceu escurecer
ainda mais. Alguns prédios sumiram, tudo ficou azul escuro acinzentado.
Lentamente a nave foi reduzindo sua velocidade de avanço para o futuro até sentir a
sucessão de dias a noites voltar, e a força da gravidade começar a atuar significativamente.
Fui descendo sobre um dos imensos prédios abaixo de mim até pousar, e esperar a desaceleração
total, até por fim parar de saltar para o futuro. Finalmente a nave tocou a cobertura do prédio.
Era noite.
A estrutura apesar de velha parecia firme, reinava uma quietude total. Quase nenhum vento. Com os
sensores da nave verifiquei a atmosfera. A pressão havia caído muito com relação ao nosso
presente, mas nada difícil de se suportar para quem já pegou um vôo do nível do mar para La Paz.
A composição do ar, apesar de diferentes níveis de Nitrogênio e Dióxido de Carbono também não
apresentava qualquer problema.
Cuidadosamente abri a cabine, ainda usando uma máscara de ar por precaução. Estava muito frio.
A temperatura acusava 6 graus abaixo de zero, mas apesar disso não havia neve. Saí da cabine bem
agasalhado, tirei a máscara e respirei o ar fresco, puro, apesar de estranho.
Em qualquer direção não se via o menor sinal de vida. Por toda parta havia prédios quilométricos.
O que eu estava era dos menores. Todos pareciam ser feitos de rocha escura maciça, embora eu
achasse isso improvável. Fora a arquitetura, não havia qualquer outro sinal de tecnologia.
Pareciam ruínas, apesar da estrutura dos prédios apresentar-se aparentemente intacta
Estava eu exatamente em 31 de Outubro de 3009, não fora possível parar antes.
Caminhei pelo terraço. O piso era firme, revestido de um tipo de cerâmica trabalhado, muito
empoeirado. Uma névoa densa e baixa não me permitia ver o solo, mas eu tinha boa visão em
todas as direções.
Pequei a câmera, que me serviu de telescópio e vasculhei o horizonte, e então muito longe ao horizonte, vi movimento. Eram
luzes distantes que denunciavam algum intenso tráfego aéreo e aparentemente uma outra cidade.
A impressão do cenário a minha volta me chamou novamente a atenção, e tudo me pareceu ainda mais
decadente e misterioso. Diria assustador. Parecia que eu estava em uma cidade fantasma, onde
sequer o vento se dignava a produzir qualquer som.
Eu estava a cometer um deslize imperdoável, na verdade dois. Primeiro, ainda não olhara
suficientemente para cima, onde enfim contemplei as estrelas. Não pareciam muito diferentes.
Avistei também pontos luminosos se movendo, sem dúvida aeronaves cortando o céu azul escuro,
que parecia o prenúncio do alvorecer, ou o contrário.
Segundo, só então me lembrei de ligar o rádio. Voltei à cabine e o acionei. Dezenas de frequências
encheram meus receptores, uma autêntica sobrecarga de transmissões. Gastei um tempo a
prestar atenção em sinais sonoros onde pude distinguir vozes falando em idiomas desconhecidos
mas onde eu pude jurar ter ouvido algo similar a latim, talvez esperanto, árabe e chinês.
Então o radar da nave acusou um objeto se aproximando rapidamente. Saí da cabine, pequei a
câmera e apontei para o céu. Sim. Havia algumas aeronaves se aproximando. Fiquei apreensivo,
temi que houvesse hostilidades. Eu viajara com toda a coragem necessária, para compensar a
falta de armas ou defesas. Não queria correr o risco de chegar ao futuro como um visitante
hostil, portanto instrumentos de destruição, por isso aceitei o perigo de viajar indefeso.
Por precaução me virei para a máquina e já estava prestes a subir nela quando de repente um raio
passou por sobre minha cabeça. Senti uma forte onda de calor e o feixe alaranjado cruzou por
sobre cerca de 3m acima da nave.
Houve uma explosão no prédio a frente, cujas paredes começaram a ruir com um estrondo que
perturbava o sono de um cemitério. Fiquei envolvido por uma nuvem de poeira e não hesitei,
saltei de volta para a cabine, fechei tudo e decidi não dar chance para um segundo disparo me
aniquilar. O indutor de avanço temporal ainda estava ativado, e a energia residual das baterias
era suficiente para começar a me mover no tempo, mas somente para o futuro.
Se quisesse viajar para o passado precisaria ligar o reator nuclear, o que demoraria mais
tempo. Por isso em segundos eu já estava voando e saltando novamente para o futuro numa razão
de 8 segundos para um quanto então outro disparo atingiu em cheio o lugar onde a máquina estava.
A onda de choque talvez tivesse me destruído se seu impacto não fosse minimizado pelo avanço
temporal, que me permitiu ver o resultado da explosão rapidamente. Um terceiro disparo ocorreu,
porém num local bem remoto, então pude ver o prédio onde eu estava desabar. Mesmo já avançando
a uns 35 segundos para um, pude acompanhar o breve desenrolar dos eventos.
Veículos aéreos muito estranhos passaram pelo local examinando-o. Pareciam robôs. Preferi pensar
que houvesse boas razões para disparar em uma máquina que estivesse numa cidade abandonada,
talvez proibida, e que possivelmente não respondera aos sinais que recebia.
Já a dezenas de dias por segundo, o céu começou a assumir novamente uma aspecto homogêneo.
Eu precisava encontrar outro local seguro para pouso e parar o avanço temporal para poder dar
início ao retrocesso, e voltar ao presente como havia previsto.
Movi a nave até sobrevoar outro prédio, mas preferi avançar mais, na esperança de que tivesse mais
tempo antes que um outro ataque me atingisse assim que eu pousasse a nave. Já passava do ano
3020 quando decidi iniciar a desaceleração. A operação toda deveria tomar no máximo uns dois
minutos, dos quais apenas por menos de 20 segundos eu estaria no tempo normal, que eu julgava
insuficientes para que eu fosse novamente detectado e atacado. Porém, para meu susto, antes que
eu pudesse sequer reduzir a aceleração, um clarão intenso se espalhou.
A cidade a minha volta subitamente desapareceu, só restando discretas ruínas ao longe. Que arma
terrível poderia ser capaz de tamanha destruição? E então fiquei a centenas de metros do solo.
Como a situação se estabilizara, comecei a descer, e quase tocava o solo, por volta de 3230, quando
outro clarão, ainda maior me lançou numa densa neblina na qual era impossível distinguir algo.
Fiquei à deriva, esperando a neblina passar, avançando para o futuro na velocidade máxima de 6
meses por segundo. Finalmente o ambiente limpou, mas revelou um solo terrivelmente acidentado.
Subitamente uma montanha emergiu e fiquei no interior de rocha sólida, protegido apenas pela
velocidade do avanço que me mantinha numa contato paralelo muito sutil com a realidade,
prossegui avançando.
Subi com a nave até encontrar céu aberto. Era um vulcão! Que aparentava atividade em pleno século
XXXV. Subi ainda mais e esperei o tempo passar até encontrar condições mais favoráveis para
pouso. Ou ao menos o vulcão aparentar tranquilidade.
Não ocorreu nem um nem outro, o vulcão parecia intermitentemente ativo e o terreno impossível de
se de aventurar, até que já no ano 5300 tudo escureceu. Parecia uma era glacial, que durou para
mim nada mais que uma hora e quase no ano 20mil, vi violentas convulsões agitarem a Terra
novamente.
O ambiente que eu sobrevoava se tornou mar, sobre o qual vaguei por mais 30 mil anos. Secou
dando origem a um imenso vale que rapidamente floresceu se tornando densa selva. Várias
mudanças procederam, mas nenhuma que me oferecesse local seguro para pouso.
Vi construções surgirem e se tornarem ruínas antes que eu me aproximasse ou começasse a
desacelerar o avanço no tempo. Sucedeu-se outra era glacial e outra, até que finalmente o
local se tornara uma ampla planície da qual me aproximei já reduzindo a velocidade de avanço da
máquina.
Embora ainda não a salvo de mudanças drásticas no cenário, fui reduzindo até chegar a velocidade
de um dia por segundo, e me aproximando do um descampado aprazível. Diminuí mais e
pude ver novamente a sucessão de dias e noites, e estranhei muito o fato do céu parecer ser
cortado por astros maiores que o Sol e a Lua aos quais eu estava acostumado.
Mas não pude prestar muita atenção nisso e me concentrei no pouso, já estava a menos de dois
minutos por segundo e quase tocando o solo, sem deixar de perceber ocasionais movimentos
na selva local, provavelmente de animais. Mas dado a aparência do ambiente, não me parecia que
ali eu encontraria qualquer coisa capaz de me fazer mal num curto espaço de tempo.
Finalmente pousei a nave, já a menos de 15 segundos por um, percebendo vários vultos ao meu
redor quando fui chamado a atenção para sistemas de alerta da nave, denunciando mal
funcionamento. A hélices bruscamente pararam de funcionar e a nave bateu duramente no solo,
e finalmente parei de avançar.
CAPÍTULO V
No painel eu tinha alertas muito preocupantes. Havia diversos danos na nave, que só agora se
manifestaram devido a estarmos de volta à influência da gravidade. Percebi que o sistema de
energia falhava, e que havia superaquecimento nos condutores.
Não tive escolha. Tinha que saltar e reparar a máquina. Chequei a atmosfera e era respirável
apesar do frio e de alta humidade do ar. A pressão atmosférica era o dobro da que estamos
acostumados, e parecia haver um excesso de ozônio. Por precaução pus a máscara.
Saí da máquina, e contemplei o cenário à minha volta. Só então me dei conta de que estava
muitíssimo além do que eu esperava viajar. Estava 80 mil anos no futuro!
Em que tipo de mundo a Terra se transformara? Que criaturas poderiam haver ali? Teria
sobrevivido a humanidade?
O rádio não captava nenhum sinal e em parte alguma eu via evidências de tecnologia avançada,
mesmo as ruínas que eu vira por volta de 75.000 haviam sumido.
Tomei coragem e tirei a máscara. O ar era diferente, mas parecia rico e revigorante, até com um
aroma agradável de clorofila. Prestei atenção a sons, e só ouvia o que qualquer pessoa esperaria
de uma floresta. Um miríade de sons suaves além do uivo de um vento moderado.
A vegetação era diferente de qualquer uma que já vi, mas nem tanto a ponto de me levar a afirmar
que nunca poderia estar numa exótica floresta do presente. Caminhei um pouco sobre um solo
que misturava areia branca fina, cristalina, rochas e cristais variados e plantas praieras.
Estava numa pequena clareira, de um lado a floresta era bem mais densa que do outro, e numa
outra direção parecia haver um abismo. O céu estava limpo, azul acinzentado, era um entardecer,
eu não via o Sol no horizonte avermelhado, mas ainda estava bem claro.
Finalmente me voltei para a máquina e comecei a examiná-la. Era muito pior do que eu pensava.
Havia vários danos. Eu não saíra incólume do ataque sofrido em 3009. Havia partes destruídas
na couraça externa e danos extensos nos cabos condutores.
Senti um súbito pânico. Demoraria horas, talvez dias para consertar aquilo. E agora não poderia
mais acionar a máquina nem mesmo para um pequeno avanço para o futuro. Toda a energia
já fora gasta, só mesmo acionando o reator nuclear para ativar o indutor temporal, o que
seria impossível sem antes consertar o sistema de refrigeração e as baterias de partida.
Intacto somente o motor a explosão que girava as hélices, que seriam inúteis para levantar
uma máquina de quase 8 toneladas sem que o indutor temporal distorcesse e aliviasse a gravidade.
Diante desta preocupação tomei um enorme susto quando percebi movimentos à minha volta.
Cautelosos, a princípio silenciosos, mas pouco a pouco mais notáveis. Apontei a câmera, mas
nem foi necessário usar o zoom, logo distingui vultos humanos! Ao menos aparentemente.
Pareceram-me a primeira vista crianças. Todos eram pequenos, morenos, cabelos escuros e
esbeltos. Me lembravam índios norte americanos com roupas de couro, embora de corte não
tão primitivo quanto em princípio me aparentavam.
Por dois motivos fiquei tranquilo. Primeiro porque não vi nenhum sinal de coisas que pudessem
ser armas. Eles tinham as mãos vazias ou traziam objetos de aparência inofensiva, como tecidos,
sacos pequenos ou bolinhas e outras formas que me pareciem ser frutas. E segundo, porque
aqueles seres pareciam ser tão dóceis e inofensivos!
Era difícil explicar. Não se devia apenas à aparência franzina e delicada, mas seus rostos,
decididamente humanos apesar de exóticos, transmitiam uma paz e tranquilidade que creio eu,
lhes fariam parecer inofensivos mesmo que fossem gigantes.
Se aproximaram mais e pude vê-los com mais clareza. Eu ficava cada vez mais tranquilo com o
modo fascinado como me olhavam. Ouvi murmúrios curiosos e risadas. Suas vozes melódicas
eram encantadoras apesar de língua absolutamente incompreensível.
Suas peles variavam do moreno ao mulato, os olhos castanhos ou verdes escuros. Os traços
eram uma mistura de orientais com índios sul americanos, porém muito mais suaves e belos.
Eram lindos! Apesar de que eu agora tinha dúvida se eram realmente humanos. Possuiam
características que não os permitiriam passar desapercebidos em nenhum lugar de nosso
tempo. Entre elas sombracelhas muito compridas e finas, que se estendiam até as temporas.
Os cabelos formavam molduras em seus rostos, muito cacheados e grossos. Os lábios em
geral grossos e pequenos e os dentes branquíssimos e ligeiramente afiados. E
ocasionalmente alguns deles me deixavam perceber línguas bem compridas e rosadas.
De repente, um deles se aproximou a distância de quase um toque, disse algo num tom muito
cortês e então depositou no chão, aos meus pés, várias frutas exóticas sobre uma toalha de
tecido muito bem trabalhado, num padrão quadriculado geométrico que destoava da aparência
mais rústica de suas demais indumentárias.
Fiquei surpreso com aquilo. Subitamente, vários deles se aproximaram e deixaram oferendas
a meus pés como se eu fosse uma divindade. Eram frutas, cristais, pequenos objetos de metal,
cerâmica ou algo que parecia osso, em geral não identificáveis mas artesanalmente trabalhados
ou em alguns casos aparentemente sofisticados.
Observando melhor seu comportamento notei que a novidade ali era eu, e nem tanto a máquina,
que eu esperava que despertasse maior atenção. Mas não demorei a supor o porquê.
Eu estivera ocasionalmente aparecendo naquele lugar através dos tempos. Lembro que eu vi
vultos correndo na floresta. Provavelmente a máquina fora avistada por vários deles ao longo
de anos, e cada vez com mais frequência, de modo que eles poderiam esperar o momento em
que eu surgiria.
Provavelmente eu estava sendo recebido com todas as honras de um esperado viajante, e diante
desse pensamento sorri pela primeira vez.
O que se sucedeu foi encantador. Ao meu sorriso, todos eles se alegraram ainda mais, alguns
deram pulos de satisfação e chegaram a gargalhar. Outros logo lhes chamaram a atenção e
ele se tornaram comedidos novamente, como se não quisessem me desrespeitar.
Ao ver alguns deles se aproximando e tocando na máquina, tomei a precaução de fechar a
cabine, mas não sem antes verificar novamente se porventura não escapava qualquer forma de
radiação. Eu seria um monstro se levasse algo tóxico para o mundo daquelas dóceis criaturas,
e de repente fiquei apreensivo pela possibilidade de trazer alguma bactéria ou vírus que lhes
pudesse ser prejudicial, da mesma forma que o mesmo poderia ocorrer comigo.
Com essa preocupação, pequei meu estojo medicinal, que possuia algumas vacinas contra
classes de bactérias conhecidas, embora eu tivesse pouco esperança que elas seriam eficazes
contra microorganismos de 80 mil anos do futuro.
Pareciam insistir para que eu provasse as iguarias trazidas, o que era temeroso. Eu não sabia
se meu organismo se daria bem com a dieta de uma floresta semi tropical de 800 séculos no
futuro. Ao mesmo tempo tinha medo de fazer alguma desfeita, então arrisquei uma provada numa
das frutas que me pareciam mais aprazível.
O gosto era muito parecido com o de maçã, porém mais ácido, mas nada que me despertasse
maior preocupação. Experimentei também outros quitutes, sempre cheirando-os primeiro e
me precavendo de colocar na boca o mínimo possível. Por fim, no primeiro momento de distração
deles, retirei tudo o que havia juntado na boca, eu nada engolira, e coloquei num frasco para
posterior análise.
A comida passara na prova de meu paladar, mais tarde eu faria alguns testes para verificar-lhe a
possível presença de substâncias perigosas. Pela mesma desconfiança, nem cogitei a
possibilidade de oferecer a eles qualquer de meus mantimentos.
Logo começaram a me chamar, fazendo gestos que indicavam claramente que queriam me levar
a algum lugar. Começava a escurecer e esfriar mais, e em parte pela curiosidade e simpatia que
eles me causaram, e em parte por estar exausto por aquelas 43 horas dentro da máquina. Decidi
aceitar o convite, mas não sem antes trancar totalmente a cabine e guardar dentro de um
depósito lacrado tudo o que pudesse ser mais facilmente retirado da estrutura externa.
Ativei várias câmeras, apontadas para fora vigiando o perímetro, para que eu pudesse
conferí-las por um visualizador remoto, e vários outros sensores que me permitiam saber de
imediato qualquer coisa que acontecesse.
Pequei uma mochila e juntei várias coisas importantes. E segui meus anfitriões num estrada
picada pelo mato, ascendente, e que me tranquilizou por que eu sempre podia ver a máquina ao
longe. No caminho, fui gravando um pequeno relato em áudio, o que não era fácil com a atenção
que aquelas criaturas me exigiam.
Notei então um forte clarão no horizonte a frente enquanto subia uma elevação, e de repente
me deparei com algo espantoso.
Era a Lua nascente! Imensa! Enorme como jamais pensei ver. Estava diferente. Mal podia eu
reconhecer o tradicional "coelho" em sua geografia, que parecia alterada. Mas era a Lua,
definitivamente, só que muitíssimo maior do que nós a vemos aqui no presente.
Parecia crescente, estando cerda de 3/4 luminosa e afastando as sombras da noite com claridade
amarelada pouco menor que a do Sol. Fiquei tão fascinado que a filmei por minutos a fio, ficando
parado para a curiosidade e impaciência de meus guias.
Que teria acontecido? Era como se a dama da noite estivesse muito mais próxima da Terra, tendo
reduzido sua distância média de 360 mil km para cerca de metade, o que a obrigaria a girar em
torno do planeta 4 vezes mais rápido para não ser puxada de encontro ao planeta pela força
de gravidade. Já no dia seguinte em iria concluir que minha hipótese estava corretíssima.
Já não mais conseguia ver a máquina devido a interposição da floresta, mas já podia ver ao longe
algo similar a uma aldeia na floresta. Caminhando sob o fortíssimo luar, no mínimo duas vezes
mais forte do que jamais fora uma lua cheia em nosso presente, logo chegamos ao nosso destino.
Fui recebido de modo ambíguo. Os mais jovens em geral pareciam muito entusiasmados e
deslumbrados, uns poucos mais velhos, que aparentavam no máximo uns 40 anos, pareciam
um tanto assustados e desconfiados, mas demonstravam a mesma inofensividade.
Uma grande festa começou, acenderam um fogueira uma multidão se aglomerou a minha volta.
Todos queriam me tocar, e então percebi que não havia um só que fosse da minha estatura. Os
mais altos tinham no máximo 1,70, e não havia muita diferença de porte físico entre os homens
e a mulheres, que trajavam inclusive roupas praticamente iguais.
Todos era também imberbes e quase sem pêlos, mesmo os homens aparentemente mais velhos,
bem como todas as mulheres tinham seios pequenos, ainda que graciosos. Eram também
todos esbeltos, alguns rapazes um pouco mais musculosos que os outros, mas nada que
chamaria atenção para nossos padrões atuais.
Observando melhor o ambiente, não demorei a notar um contraste de recursos. Predominava
um arquitetura rústica. As casas eram construídas em torno das árvores, com madeira e imensas
folhas de algum vegetal estranho, que devidamente entrelaçadas se assemelhavam a uma grossa
e rígida palha. Havia também algumas construções de pedras montadas e aparentemente coladas
por massa. Havia artesanato bastante rebuscado com madeira, ossos, pedra polida e uns poucos
metais, mas tudo ainda primitivo. Por outro lado, em ocasionais locais eu notava aparatos bem
mais sofisticados, de metal forjado de modo muito mais refinado, tecidos que pareciam
industrialmente trabalhados ou objetos de vidro de grande transparência.
Era estranho, e a primeira coisa que supus era que eles tinham contato com povos de tecnologia
superior que lhes forneciam esses objetos.
Chequei as câmeras que vigiavam a máquina, e salvo um ou outro deles que costumavam surgir
para olhá-la mais de perto, nada de preocupante aconteceu. Comi alguns itens de meus
mantimentos ante o olhar curioso deles, e tive uma grande dificuldade para conseguir alguma
privacidade para necessidades básicas.
Acabei por aceitar líquidos que me eram oferecidos. A água parecia ser um tanto ferrosa, e
havia alguns refrescos de sabores estranhos que sorvi o mínimo possível. Pouco a pouco a
festa foi se acalmando, até que vários deles se reuniram sentados em torno da fogueira onde
em também estava, e falaram muito entre si.
Foi então que comecei a prestar melhor atenção a seu idioma, e me pareceu bastante simplório.
Os termos se repetiam muito, havia uma quase total predominância de vogais em detrimento de
semi-vogais e muitas consoantes pareciam fundir-se numa só, de modo que distinguia com
clareza no máximo umas dez. T e D eram indistinguíveis por exemplo.
O sono me atacou e então alguns me chamaram e me levaram a um aposento suntuosamente
preparado para os padrões deles. Era uma cabana no alto de uma rocha, ao lado de outras,
bastante limpa e ornamentada com várias indumentárias.
Pouco a pouco tudo se acalmava, a fogueira se apagou e restou apenas a forte claridade da
Lua. Logo depois, uma bela moça veio me fazer uma insistente companhia. Era muito jovem, e não
me agradava a conotação sensual que aquilo sugeria, me faria sentir como um pedófilo. Por outro
lado tive a sensação de que recusá-la poderia ser ofensivo, e então optei por acolhê-la mas
de modo algum tomar alguma atitude.
Porém foi inútil, a bela jovem, de olhar tão ingênuo, se lançou sobre mim com uma voracidade
que jamais pensei ser possível numa criatura de aparência tão frágil. Preocupado com problemas
relativos a contaminação biológica, e também cultural, agi como uma presa acuada, mas após
horas de insistência a jovem, que logo entendi que se chamava algo como "Uina", venceu minhas
resistências, assim como acho que teria vencido até a de um monge.
CAPÍTULO VI
No dia seguinte um Sol radiante me despertou, e olhando confuso à minha volta, demorei muito tempo
para me convencer de que tudo aquilo era real. Num sobressalto conferi a gravação das câmeras que
vigiavam a nave. Para minha preocupação inicial uma das câmeras foi virada e filmava agora a trilha que
dava acesso ao local, mas essa contingência foi benéfica, pois pude ver então que meus anfitriões montaram
uma guarda no local, impedindo que alguns outros, em geral crianças, se aproximassem da nave.
As demais câmeras também me tranquilizaram, retrocedi e acelerei as gravações várias vezes e vi que nada
merecia preocupação, ainda que muitos deles houvessem se aproximado e tocado a máquina.
Ao acordar e me ver desperto, a moça com a qual dormi subitamente me tomou pelo pulso e me levou para fora
onde várias pessoas me aguardavam. Fui, mais uma vez, recebido com festa e entusiasmo, e havia um banquete
impressionante distribuído por váras mesas.
Após um breve auto-exame com meu kit medicinal, que incluiu uma análise superficial de minha própria urina,
conclui que não muito provavelmente não havia grande risco naqueles alimentos, mesmo assim comi-os moderadamente,
intercalando-os com minha própria comida. Eu viria a ter alguns revertérios intestinais, mas nada grave.
Irresponsavelmente despreocupado, me entreguei à alegria daquelas criaturas. Havia também músicos, que usavam
curiosos intrumentos de cordas e sopro com emitiam sons primitivos mas agradáveis, e alguns exibicionistas que
faziam acrobacias e malabarismos. Notei que, definitivamente, eles tinham acesso a tecnologias mais avançadas,
mas logo percebi que pareciam ser antigas. Era como se eles usufruíssem dos espólios de antigas civilizações
sofisticadas, a julgar pelos tecidos evidentemente industriais que possuiam, bem como por alguns utensílios
de vidro e metal evidentemente forjados por técnicas que pareciam alheias àquelas pessoas.
Mas logo notei também que havia duas classes daqueles objetos. Um deles era constituída de manufatura recente
e medianamente sofisticada, e o outro de manufatura mais antiga porém bem mais avançada. Em vários destes mais
antigos pude notar inscrições em caracteres exóticos e complexos, ao passo que nos recentes observei no máximo
rabiscos simples. Uns poucos objetos conseguiram me confundir por um tempo, mas era notório que essas diferenças
era até mesmo identificadas por seus usuários. Supus então que deveria haver, não muito longe, uma outra tribo que
dispusesse de instrumentos mais sofisticados e de maior acesso a recursos.
Mais tarde visitei a nave, e sob um sol forte mais normal sob todos os aspectos, dei início a uma investigação mais
minuciosa. De inicío desanimado, logo vi que alguns dos
problemas de contato e danos eram de fácil reparo, e que o mais difícil era lidar com a curiosidade de meus
companheiros. Passei o restante do dia trabalhando no conserto da máquina e comi ali mesmo a refeição que me trouxeram.
Só parei ao ver a espantosa lua quase cheia emergir no horizonte tornando a noite mais clara que o fim do dia.
Caindo a noite, mais uma vez assisti a alguns shows de meus anfitriões, e desta vez uma nova moça veio compartilhar
meu leito, e assim terminei meu primeiro dia completo naquele novo mundo.
Logo se estabeleceu uma rotina. Acordava cedo e após um período na aldeia, me dirigia para máquina. Não demorei a perceber
a sorte que tive ao ser tão bem acolhido. As dificuldades da manutenção começavam a se tornar muitíssimo mais complexas,
meu mantimentos não seriam suficientes nem para um décimo do tempo necessário para colocar todo o equipamente para funcionar.
Eu estaria em maus lençóis se não tivesse abrigo e comida de tão satisfatória qualidade, pois ao dia o calor era bem
intenso, mas esfriava muito à noite, e permanecer dentro da máquina seria não só desconfortável, mas quase insusportável
sob o sol intenso.
Paralelamente fui registrando tudo o que podia, e me integrando com aquele povo. Eles falavam uma língua inicialmente
simples, porém de sutilezas difíceis de dominar. Eles chamavam a si próprios de "Eloi", e não demorei a aprender seus
nomes, em geral, todos simples. Minha companheira favorita, Uina, foi de grande valia, pois era inteligente e
paciente, logo se tornando minha professora.
Com isso, fui pouco a pouco penentrando na cultura daqueles dóceis seres. Elas tinham uma visão de mundo bem primitiva,
sequer sabiam que viviam num mundo esférico, embora tivessem mitos que de fato correspondiam com algumas das realidades
que presenciei. Acreditavam que outrora só havia água, e que desta tudo emergira. Falavam sobre um tempo onde a Lua era
pequena, e quando as noites escuras eram muitas e longas. Falavam também de quando deuses e grandes máquinas andavam sobre
a terra, a incontáveis eras atrás. Na realidade, eu era considerado um remanescente destes deuses antigos.
Não possuiam qualquer escrita ou matemática sofisticada, mas algo neles me intrigava, pois apesar de se comportarem como
índios de nosso tempo, possuiam alguns comportamentos, por vezes, refinados demais. Eram muito cuidadosos no trato uns com
os outros e com a floresta, que era respeitada, amada e temida. As vezes se comportavam à mesa de refeição de um modo quase
grã-fino, e embora cantassem e gritassem quando felizes, por vezes eram silenciosos e comedidos.
Apresentavam uma característica marcante, e um tanto comum entre os silvícolas do nosso tempo, ainda que aparentemente
exagerada. Veneravam a Lua, e eram muito ativo nas noites claras, mas ocorria uma verdadeira depressão social na noite
de Lua Nova, a noite escura, que ocorria a cada 7 dias. Se recolhiam ao interior de suas casas desde antes do anoitecer,
sempre em grupos. Mesmo eu, nestas noites, dormia acompanhado de diversos outros, incluindo os rapazes mais fortes que
pareciam dispostos a me proteger.
No início fiquei assustado, talvez devessem haver animais terríveis que eram ativos na escuridão, mas com o tempo fui
ficando cada vez mais convencido de que se tratava de um temor supersticiosos, visto que jamais vi qualquer indício de
criaturas perigosas por ali, salvo alguns tipos de cães e gatos selvagens. Na realidade não havia qualquer sinal de grandes
predadores como felinos, lobos ou ursos, e esses poucos cães avantajados me pareciam, em sua maioria, descendentes de
cães domésticos.
Mesmo assim, desisti de insistir em me aventurar nas noites escuras, devido ao pânico que essa simples idéia inflingia
neles.
Como eu previra, a Lua completava uma volta em torno da Terra a cada 7,5 dias, isto é, cerca de 4 vezes mais rápido do que
em nosso tempo, e isto, é claro, explicava como ela poderia estar duas vezes mais perto. Assim, os dias eram facilmente
classificados em algo traduzível como dia da Lua Cheia, Cheia-Minguante, Minguante, Minguagte-Negra, Negra,
Negra-Crescente, Crescente, Crenscente-Cheia.
Era evidente que esse ciclo não coincidia exatamente com 7 ou 8 dias, era irregular, mas os Eloi não pareciam notar
essa irregularidade, ainda que soubessem que por vezes a Cheia não era tão Cheia. Os dias também era 19 minutos mais
longos que os atuais, e isso tornava o calendário bem difícil de organizar, pois me parecia evidente que o ano também
não deveria ser igual ao do nosso tempo. Que processos fantásticos teriam levado à Lua a se aproximar tanto da Terra,
eu não podia suspeitar, mas isso explicava também os curiosos arroubos de ventos súbitos que aconteciam as vezes, por
sorte detidos pela florestas, bem como justificavam as crenças deles de que os distantes rios e mares subiam e desciam
dezenas de metros. Era as marés, elevadas pela proximidade da Lua.
Mas de todas as peculiaridades daquele novo mundo, por mais interessantes que fossem, eram completamente obscurecidas
pela constatação que só o tempo me permitiu fazer.
***
Terceira Parte
OS ELOI
CAPÍTULO VII
Nos menos de 4 meses que convivi com os Eloi, não demorei a notar algo espantoso. Vi, neste período de tempo,
crianças nascerem, passarem a engatinhar, andar e falar! Os Eloi tinham um crescimento muitíssimo acelerado!
Quando me convenci definitivamente disso não pude deixar de supor que essa brevidade se extendia a toda a sua vida,
e não demorei a passar a confirmar isso.
Nesse tempo vi também adolescentes se tornarem adultos, meninos engrossarem a voz quase do dia para a noite e meninas
desenvolverem seios do zero ao farto em cerca de uma semana. A conclusão era inevitável, todo o ciclo de vida deles
era acelerado. A medida que dominei o idioma fui entendendo que eu não havia entendido mal quando me diziam suas idades.
Sempre de poucos anos. Na verdade, muito poucos chegavam aos 10 anos!
No começo pensei que minhas medidas estavam incorretas, e que o que entendi como "ano" em questão não poderia ser comparado
ao nosso, ou mesmo que um período de translação da Terra fosse de fato maior, mas era bastante claro para os Eloi que seus
anciãos tinham no máximo 10 anos, isto é, períodos que envolviam estações climáticas cíclicas razoavelmente definidas.
Com isso, era totalmente espantoso que conseguissem atingir a inteligência em tempo tão curto, conservá-la e aperfeiçoá-la
a ponto de gera uma cultura. Uina, tinha nada mais que 3 anos! Era uma moça para a idade deles e ainda não tivera filhos.
Fiquei então muito preocupado com que tipo de resultado poderia advir caso ela ficasse grávida de mim. E devo então
explicar quer embora eu tenha tido várias outras companheiras nos meus primeiros dias, Uina, de certa forma, logo se "apossou"
de mim.
Os Eloi, como eu já disse, eram pequenos. Os maiores mal atingiam 1,70, e a média era por volta de 1,60. Eram também,
sempre, magros, com no máximo gordurinhas abdominais localizadas. Sua pele era morena escura, variando bem pouco de
tonalidade, e seus olhos sempre negros, bem como todos os pelos do corpo.
Tanto homens quanto mulheres usavam cabelos compridos, em geral encaracolados, mas que eles costumavam alisar com cremes
ou indumentárias. Por vezes pintavam os rosto e os braços com tintas coloridas e vestiam-se de acordo com seu clima, ou seja,
quase nus nos momentos mais quentes, mas agasalhados com roupas rústicas de material semelhante a couro, que demoraram a
me intrigar.
Onde conseguiam aquele material? Era em geral de cor marrom escura, por vezes peludo, mas não havia rebanhos naquela aldeia,
tãopouco animais silvestres com características compatíveis. Muitas vezes, também, vestiam roupas feitas com um trançado
de tecidos obtidos de árvores, de aparência mais rústica, porém mais confortável, mas uma minoria usava tais vestimentas.
Alguns também usavam adereços de osso ou madeira, mas não costumavam perfurar o corpo. As mulheres se enfeitavam mais,
mas a diferença não era muito grande, aliás, salvo quando estavam seminus, eram inicialmente difícil diferenciá-los.
Devo dizer que, no começo, demorei a me acostumar com os odores, visto que embora fossem asseados, não tinham hábitos
muito similares aos nossos.
Se o crescimento em si era rápido, as gestações também eram, e muito. Em pouco mais de um mês a moça passava por uma
gravidez completa, e, curiosamente, não voltava a engravidar em menos de meio ano. Na verdade não demorei também a
perceber que aquele povo crescia a uma taxa muito discreta, se é que crescia. Mesmo tendo uma vida sexual bastante
ativa e livre, as reproduções eram pouco frequentes, caso contrário, é obvio, se multiplicariam a uma razão estupenda,
entendi que isso não acontecia.
Socialmente, eram também bastante simples. A noção de família não era nada clara, não havia casamentos, e toda a ordem
social era administrada pelos mais velhos, que eram um tipo de casta religiosa. Estranhamento, era exatamente com esta
casta que eu tinha menos contado. Esses "anciãos", de menos de 10 anos, eram bastante respeitados, mas também muito distantes.
Havia uma discreta hierarquia claramente baseada por idade, e com notável predominância de mulheres nos níveis
intermediários, mas de homens no nível mais alto.
Comigo, só se comunicavam os mais jovens. Era como se servissem de intermediários entre mim e os mais idosos. Bom observar
que eles também não demoraram a entender que eu era muito mais velho que qualquer um deles, fato que não acharam estranho,
visto que a idéia de que as divindades são imortais parece ser universal. Fato era que eu tinha mais que o triplo da
idade do mais velho deles, e isso parecia inspirar um certo temor nos idosos, mas curiosamente não nos mais novos.
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