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-Atualizada em 11 de Agosto de 2010-
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2 0 1 0
11 de Agosto de 2010
S P O I L E R S ! ! !
Uma espera de 20 anos acabou. A franquia iniciada com o excelente O Predador, e continuada com o também ótimo O Predador 2 enfim retorna ao cinema. Como eu esperava, Predadores não é tão bom quanto os originais, mas é bem melhor que os "Alien Vs Predador" que constituíam até há pouco a única continuidade cinematográfica de uma idéia tão boa, devidamente comentados no periódico de 4 de Fevereiro de 2008.
Predator é tão bom, embora não exatamente original (vide Sem Aviso) , que é difícil estragar. Embora qualquer sequência perca o maior trunfo do filme original, o mistério que aos poucos se revela, ainda há muito material para se trabalhar. A cada instante surgem novidades, um pouco mais é mostrado, o que mantém o interesse constante. Embora seja também um filme de ação, não acontece de sobrar somente isso para o final, as doses de suspense, revelação e mais mistérios sempre correm paralelas.
Lembrando do primeiro filme, só ao fim temos uma idéia mínima do que era a criatura, e o desfecho literalmente bombástico nos dá ótimas sugestões a respeito de sua cultura, procedimento e tecnologia. O mesmo se mantém no segundo filme, onde a cada momento novas informações ajudam a compor o cenário, até o impressionante final que nos mostra para além de qualquer dúvida a enorme extensão e profundidade da encrenca.
É uma coisa, que, por outro lado, não ocorre em Alien. No primeiro filme, todo o mistério, o clima de exploração e enfoque científico acabam por completo na primeira metade, sobrando só terror e desespero para o restante, (ao menos na versão original, pois na do diretor é bem diferente, e melhor, porém, incompatível com o ótimo segundo filme). Em Aliens há uma distribuição mais harmoniosa das doses de ação e descoberta, coroados por um final absolutamente espetacular. Infelizmente, tudo foi desgraçadamente arruinado nos filmes posteriores Alien 3 e Alien Ressurection, que isoladamente até têm seu valor, mas como herdeiros da franquia dos dois primeiros filmes são um retrocesso inacreditável.
Neste novo Predators temos muitos altos e baixos. O clima inicial é ótimo, visto que o despertar súbito de desconhecidos em algum lugar estranho é uma fórmula infalível de um bom suspense. Mas logo notamos que todos os personagens são fluentes em inglês apesar de virem de diversos locais do mundo. Será que os "Caçadores" se preocuparam em garantir que suas vítimas fossem capazes de se comunicar, ou isso apenas reflete a frequente crença norte americana que todo mundo fala Inglês? Imagino que seria muito mais interessante se tivéssemos personagens se entendendo precariamente, numa profusão de idiomas distintos, dando ainda mais material para os caçadores explorarem linguísticamente.
Bons observadores logo notam o tipo de gente coletada, de imediato desconfiando do "médico", único aparentemente inofensivo, desarmado e mesmo assim incrivelmente calmo. Foi bom não revelar muito a respeito da vida pregressa dos personagens, pois se soubéssemos melhor o que faziam na Terra, provavelmente seria impossível torcer por eles. Aparente exceção é o "casal" central que previsivelmente vai até o final (não dá nem pra chamar isso de spoiler). Nada santos, mas parecem logo à primeira vista os melhores.
Fiz vista grossa para o velho problema de outros planetas que no fundo são exatamente iguais à Terra (gravidade, composição e pressão atmosférica), só mudando detalhes irrelevantes como planetas ou satélites no céu, embora nesse caso ao menos os dias sejam mais longos. Também tento não me incomodar para o modo absolutamente espontâneo com que os personagens, e o público, aceita o fato de que a flora de um outro mundo seja simplesmente indistinguível da nossa, quando mesmo em nosso próprio planeta temos uma variabilidade muito mais impressionante.
O personagem de Laurence Fishburne, ao surgir no filme, acrescenta uma nova expectativa, e alguns ótimos momentos, mas sai de cena de um modo, a meu ver, completamente equivocado, tendo uma morte não condizente com o status de desafio que deveria representar para os caçadores. Algumas sequências são muito confusas, como o modo estranho com que o médico se perde dos demais na fuga do interior da nave destruída, que antes parecia ter corredores pequenos e estreitos, onde todos praticamente se arrastavam, e depois se torna convenientemente espaçosa.
Mas os personagens surpreendem, os que pareciam mais desprezíveis mostram suas qualidades, e é difícil não simpatizar com o presidiário condenado à morte que enfrenta o alienígena com um frenesi psicopático hilário. O filme também abusa das referências ao original, copiando quase integralmente algumas sequências, e uma delas, lembrando àquela do índio, nos presenteou por algo imaginado pelos fãs há muitos anos, o conflito entre um guerreiro japonês e um 'Predador'. Embora a luta deixe muito a desejar, teve sua beleza cênica, principalmente no quadro final.
Quando o "médico" enfim diz à que veio, se revelando de forma nem um pouco surpreendente para qualquer um com mínimo de vivência cinematográfica (estranho foi os outros personagens não desconfiarem dele), nos faz enfim refletir, como já fora sugerido em Predator 2, que esses caçadores alienígenas estão nos fazendo um enorme favor, limpando o nosso planeta, ainda que com alguns "danos colaterais". Isso é uma das coisas mais interessantes na franquia Predator. Não se trata daqueles enfadonhos filmes de horror onde um monstro invencível persegue vítimas indefesas. Aqui não há inocentes, temos um confronto onde ninguém, nem mesmo os monstros, está a salvo, frequentemente invertendo o papel entre caça e caçador.
Enfim, apesar de várias falhas, penso que valeu a pena esperar para ver a reabertura da franquia. Este novo filme, apesar de tudo, mantém o espírito original e não ameaça as expectativas para os rumos da série, como "Alien Vs Predador" faz. Foi bom também ver a referência direta ao primeiro filme, que só agora fiquei sabendo ser ambientado na Guatemala, mas ao mesmo tempo lamento a falta de referência ao segundo, ambientado em Los Angeles.
Bom lembrar que, mais uma vez, a essência otimista dos demais filmes foi mantida. No sentido em que apesar de tudo, a humanidade é capaz de se unir quando a situação realmente aperta. Mensagem que em todos os filmes Alien é exatamente contrária, sempre procurando mostrar que apesar de tudo a espécie humana é pior que os monstros. Neste filme, é dito explicitamente o contrário, apesar do pessimismo dominante em grande parte de nossa cultura que parece crer que seria possível ficar cara a cara com uma besta irracional qualquer e apreciar por alguns segundos suas virtudes. Por pior que possam ser alguns representantes de nossa espécie, não muda o fato de que ela em si é a única à qual o conceito de dignidade faz sentido. No próprio "Alien Vs Predador", é evidentemente com a espécie dos "Predadores" que surge uma aliança com a personagem humana, pois afinal, trata-se de um ser sensciente, e nesse sentido, também humano. Por pior que ele seja, ainda é possível algum entendimento, coisa impossível com uma fera irracional.
Também nos faz lembrar o quanto frequentemente caímos no "reducionismo" da falácia que generaliza o todo pela amostra de apenas algumas partes. Enquanto uma espécie irracional como a dos "aliens" provavelmente se comporta da mesma forma onde quer que exista, nada justifica pensarmos assim da espécie dos "predadores". Como algumas estórias em quadrinhos sugeriram, nada garante que se trate de uma civilização totalmente voltada para a caça. E até mesmo possível que seja uma espécie eticamente mais avançada que a nossa, onde aqueles caçadores sejam uma minoria aberrante operando na clandestinidade. Afinal, se aqueles humanos levados para o tal planeta não representam devidamente a humanidade, porque aqueles caçadores deveriam representar integralmente sua própria espécie?
Faço votos para que tenhamos novos filmes como este, que explorem estas questões e tornem ainda mais interessante este que é um dos mais icônicos monstros da história do cinema, e cuja idéia inicial é tão forte que consegue ecoar positivamente 23 anos depois.
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